Domingo, Setembro 27, 2020

Rodrigo Cabrita com uma câmara, Covid na rua, famílias em casa

Um deste dias, algures por entre os dois meses que teimarão em ocupar-nos a memória por todos os anos que durarmos, cruzei-me com uma fotografia que condizia tão bem com o que todos estávamos a viver que, na minha reconstrução mental da história que poderia estar ali contada, quase acertei em cheio. A fotografia era da autoria do Rodrigo Cabrita e depois soube o que retratava: a filha do Rodrigo comoveu-se ao ver os avós quando a visitaram para lhe levar um frasco de bolachas que lhe tinham feito. Uma visita à distância, sem abraços nem beijos, com luvas e máscaras, num afastamento que conseguiu humedecer-me os olhos tanto na altura como agora enquanto escrevo estas linhas. Toda a história da imagem estava lá. Mais, toda a história da filha do Rodrigo era um reflexo perfeito da angústia onde os meus filhos e os meus pais pareciam ser também protagonistas. É uma história que todos provaram acreditar que mais tarde ou mais cedo terá um final feliz, mas que ainda assim não deixa de ser um aperto, um nó.

Esta imagem saiu da câmara de um fotógrafo que não sabe estar quieto. A profissão do Rodrigo Cabrita é contar histórias com imagens, com uma carreira no fotojornalismo invejável, mas quem o conhece pessoalmente sabe que conta as suas histórias por gosto com ou sem uma câmara nas mãos. Como muitos fotógrafos por estes dias, vendo-se fechado em casa, optou por partilhar com quem o segue a história da sua família em confinamento, num conjunto de imagens ora comoventes, ora divertidas ou simplesmente ilustrativas da forma como muitos temos vivido o que nunca nos tinha passado pela cabeça viver.

Rodrigo Cabrita é um dos vários fotógrafos que, vendo-se fechado em casa durante a pandemia, optou por partilhar em imagens as suas histórias familiares

A fotografia de que falo, que já tomou para si boa parte das linhas deste texto, deu o mote para pedir ao Rodrigo que me permitisse fazer esta partilha. Perguntei-lhe se me deixaria publicar aqui algumas dessas imagens e se me deixaria falar delas, mesmo sem lhe ter contado o que nelas me comoveu, e não hesitou em dar-me o consentimento para o fazer.

© Rodrigo Cabrita

Um dos lados que mais me atraem nestas fotografias do Rodrigo Cabrita é a forma como foge aos artefactos. Artifical ou natural, a luz que está nas suas imagens garante uma espécie de what you see is what you get. A força emocional do que é tornado visível tanto vem do vinco que uma portada de janela marca na luz que vem lá de fora da rua, como da que é emanada apenas pelos píxeis de um dispositivo eletrónico. Tudo é natural e simples, e é daí que vem a robustez. São vários os fotógrafos que empreenderam num documento visual destes dias “doentes”, e quem me dera fazer passar por aqui alguns por estas páginas, mas o Rodrigo Cabrita teria certamente de ser um deles.

Sobre o autor

Rodrigo Cabrita é fotojornalista e, hoje com 42 anos, pode dizer que conhece bem a arte de fotografar para meios de comunicação. Começou pelo Diário de Notícias, mas passou pelo desportivo O JOGO, vindo mais tarde a assumir o papel de editor adjunto de fotografia do Jornal i.

Fora das redações, é membro do coletivo de fotógrafos 4SEE e os seus trabalhos integraram projetos como o 12.12.12 e o Projeto Troika, verdadeiros testemunhos fotográficos da crise económica em Portugal durante as medidas de austeridade após a operação de resgate na economia portuguesa.

Diz não se imaginar a fazer outra coisa na vida senão fotografar. Para além do Diário de Notícias, do Jornal i e do O JOGO, outros jornais como o Jornal de Notícias, o Le Monde, ABC, Les Temps, ESPN Magazine, a agência Associated Press e o site Time.com publicaram imagens suas. Foi vencedor do prémio Gazeta de Fotojornalismo 2011 com uma imagem das cerimónias fúnebres do escritor José Saramago e do Prémio Estação de Imagem em 2014 com o trabalho “Aprender a Sobreviver” na categoria “Vida Quotidiana”.

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