Sábado, Outubro 24, 2020

Lentes vintage, o segredo está no vidro

Até há pouco tempo, o velho vidro com mais de meio século em cima era para mim um dos pontos de minha maior insensibilidade no que diz respeito à qualidade das imagens que se pode extrair de um equipamento fotográfico. Sem desculpa, porque quando comecei a fotografar, esta coisa do digital assemelhar-se-ia mais a ficção científica. Pode ser subjetivo ou meramente psicológico, mas desde que trabalho com câmaras digitais – desde 2002 – assisti a tanta evolução nos equipamentos que considero nada me faltar hoje (muito antes pelo contrário) face ao que tinha no tempo de expor luz exclusivamente em emulsões químicas. Exceto, no entanto… aquele aspeto orgânico inexplicável – e que não consigo mesmo descrever – das imagens de outrora e que ainda hoje me faz olhar para as imagens mais antigas com outro encanto.

Há quem lhes chame "lentes vintage". Com elas, consegui recuperar boa parte do aspeto orgânico da película. Esta imagem fom feita com a Helios-44M.
Há quem lhes chame “lentes vintage”. Com elas, consegui recuperar boa parte do aspeto orgânico da película. Esta imagem fom feita com a Helios-44M.

Coisa por explicar, esta, e tal como a avestruz enfia a cabeça na areia, também eu me auto convenci de que tal não passaria de sugestão, até porque é verdade que, ao contrário do que aconteceu com o áudio, em que o analógico ainda hoje é imbatível, em registo de imagem as valências do analógico já foram largamente superadas várias vezes pelas virtudes dos bits e dos bytes.

Muito recentemente, mão amiga deu-me um valente empurrão para o mundo das “lentes vintage”. Vidro quase esquecido em lentes que foram bem sucedidas nos anos 40, 50 e 60 do século passado. Ia lá eu saber que estas lentes a) não só encaixam que nem uma luva em boa parte dos modernos equipamentos com adaptadores específicos; b) que uma vez em uso me iam fazer recuperar a inexplicável beleza das imagens que julgava perdida e; c) – agora vem a parte que mais me espantou – são fáceis de encontrar em sites de troca de coisas usadas, Feira da Ladra e similares e antiquários por poucas dezenas de euros. Lentes de focal fixa com uma qualidade extrema, incrivelmente luminosas (f/1.4, f/1.2…) e que permitem o registo de imagens com um detalhe e luz que não consigo obter em nenhuma das minhas restantes lentes com quatro dígitos na etiqueta de preço. O compromisso de troca? Esqueçam a focagem e a exposição automática. Mas também vos digo que após nos habituarmos a uma boa lente manual, até nos esquecemos que os automatismos existem.

Da minha experiência recente, destaco-vos duas destas lentes que considero consubstanciarem uma das melhores imersões neste maravilhoso (velho) novo mundo.

Super Takumar 50mm f/1.4

Super Takumar 50mm f/1.4, imortalizada pela Pentax
Super Takumar 50mm f/1.4, imortalizada pela Pentax

É uma lente dos anos 60 que chega então ao mercado pela mão da Asahi Optical, uma empresa japonesa nascida em 1919 com o intuito de fornecer a indústria de cinema e que cresceu em pulo com a II Guerra Mundial com o aprovisionamento de equipamento ótico para armamento. Regressa aos seus velhos propósitos após a guerra, abastecendo marcas como a Konica e a Minolta, e em 1952 lança a primeira câmara fotográfica reflex de 35mm (SLR) alguma vez concebida, a tão conhecida Pentax. Muita coisa se passou entretanto, mas fica resumidamente explicada a razão pela qual as câmaras Pentax sempre envergaram das melhores lentes para fotografia de sempre.

Pessoalmente, considero esta Super Takumar 50mm f/1.4 uma das melhores peças do género. Com um encaixe M42, é extremamente fácil adaptar a uma Canon com um adaptador específico e extremamente acessível (tanto na disponibilidade como no preço). As imagens que permite registar são incrivelmente detalhadas, com um “ponto doce” na abertura f/2.8 que não produz vinhetagem ou distorção esférica de qualquer espécie, pese embora uma ligeira coloração amarelada nas fotografias resultante do revestimento antirreflexo que, não se gostando (eu gosto), exige correção no momento da edição.

Helios 44M 58mm f/2

Helios
Helios-44M, de fabrico russo, o elemento de referência das câmaras Zenit.

É uma lente que começa a ser produzida em 1958 na antiga União Soviética com um propósito muito específico: produzir uma cópia exata da Carl Zeiss Biotar 58mm f/2. Diz mesmo a lenda que a coisa meteu espionagem industrial à séria e que todos os segredos de construção da marca alemã foram “roubados” pelos soviéticos. Cópia feita através da fórmula secreta da Zeiss, a Helios é produzida em massa até 1992, equipando a bem conhecida câmara Zenit. Assim nasce uma lente praticamente irrepreensível, capaz de um detalhe de 50 linhas por milímetro, mas… com uma falha de construção que nem a fórmula roubada à Zeiss conseguiu evitar: a Helios 44M não dispõe de um elemento ótico específico que evita o chamado “efeito olho de gato”. Ou seja, os raios luminosos que não entram perpendicularmente ao centro da lente (os que entram de lado, obliquamente) não produzem um círculo de foco perfeito, mas sim oval, acentuando-se a deformação à medida que a luz é mais lateral (até o círculo de foco assemelhar-se ao olho de um gato). Em situações específicas em que o fundo de uma cena fotografada é constituído por pontos de luz fora de foco – bokeh – (como os raios de luz que passam pelos ramos de uma árvore), o efeito é semelhante ao de uma torção que faz parecer que estes pontos de luz andam em círculo. A verdade é que este defeito se tornou carismático e a lente foi catapultada para o sucesso por isso mesmo.

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Nos pontos fora de foco da folhagem da árvore, sobretudo os que estão mais longe do centro, é claramente visível um efeito que dá a ilusão de um twist geral no plano de fundo.

Ampliação da imagem: Os pontos de luz fora de foco junto ao centro da imagem (junto ao sinal de trânsito) mantêm a sua forma redonda.
Ampliação da imagem: Os pontos de luz fora de foco junto ao centro da imagem (junto ao sinal de trânsito) mantêm a sua forma redonda.

Ampliação da imagem: Os pontos de luz fora de foco mais distantes do centro da imagem assumem o aspeto "olho de gato", o que origina na imagem total a ilusão de uma torção/rotação do plano de fundo.
Ampliação da imagem: Os pontos de luz fora de foco mais distantes do centro da imagem assumem o aspeto “olho de gato”, o que origina na imagem total a ilusão de uma torção/rotação do plano de fundo.

A parte melhor, mais uma vez, é que é extremamente fácil comprar esta lente por poucos euros. E cá vai um segredo: procure num site de usados uma Zenit que o dono já não queira e vai perceber que, com sorte, 35 euros chegam para fazer a festa. A câmara, caso não a queira usar, põe na estante para enfeitar e a lente regressa ao ativo numa nova câmara, precisando-se apenas de um adaptador M42.

As câmaras Zenit constituiram um marco da indústria fotográfica da União Soviética. As suas especificidades tornaram-na difícil de usar, mas a lente que as equipava ainda hoje é carismática.
As câmaras Zenit constituiram um marco da indústria fotográfica da União Soviética. As suas especificidades tornaram-na difícil de usar, mas a lente que as equipava ainda hoje é carismática.

E todas as câmaras recebem estas lentes?

Ora aí está. Aqui temos um problema.

Todas as lentes para câmaras fotográficas têm uma medição chamada registo ou, na terminologia internacional, a “Flange Focal Distance”. Resumidamente, é a distância que vai desde o ponto de “encosto” na câmara, na parte traseira da objetiva, até ao plano de imagem (o sensor ou a película). Desta distância resulta a profundidade de foco (não confundir com profundidade de campo), que corresponde à distância que permite que a lente produza imagens impecavelmente nítidas em todas as situações. Ora, para uma lente ser adaptável a uma câmara é necessário que tenha esta distância igual ou superior àquela para que a câmara esteja preparada.

Exemplificando: as lentes com o sistema de montagem M42, como as duas descritas neste artigo, têm um registo de 45,46 milímetros (só produzem imagens nítidas em toda a plenitude a 45,46 milímetros do plano de imagem). Como no caso das Canon SLR, por exemplo, a distância que vai do ponto de encosto da lente ao plano de imagem é de 44 milímetros, basta usar-se um adaptador que afaste a lente em 1,46 milímetros da câmara para que tudo funcione bem. No caso de uma Nikon SLR, por exemplo, a coisa complica-se, uma vez que tem uma distância do ponto de montagem da lente até ao plano de imagem de 46,5 milímetros, o que significa que uma destas lentes teria de ser recuada em 1,04 milímetros para dentro da câmara, o que iria fazer com que o espelho que serve o visor, ao abrir e fechar, batesse na lente e partisse. Para estes casos, o adaptador tem de passar por mais um elemento ótico para alterar a profundidade de foco da lente, o que “mexe” na qualidade de imagem, mas de uma forma perfeitamente aceitável se o adaptador for de boa qualidade.

Profundidade de foco (também conhecido por registo ou Flange Focal Distance) das SLR Canon e Nikon.
Profundidade de foco (também conhecido por registo ou Flange Focal Distance) das SLR Canon e Nikon.

Neste campo da adaptabilidade ficam a ganhar os felizes proprietários das câmaras sem espelho (Mirrorless Cameras) com as quais qualquer lente tem um registo bastante superior ao que a câmara exige, bastando pequenos tubos extensores para usar as objetivas.

6 COMENTÁRIOS

  1. Belissimo artigo de um assunto ainda pouco valorizado em portugal! Eu comprei a minha primeira objectiva manual há dois anos e estou completamente viciado… já vou com 11 desde 24mm até 200mm e todas são fantasticas!! Pessoalmente gosto muito das carl zeiss jena!!

    • Obrigado, Márcio, pela sua partilha. Efetivamente é um mundo infindável. Esteja à vontade para partilhar connosco a sua experiência e recomendações sobre as lentes que usa. Cumprimentos.

  2. Gostei de ler o seu texto, é sempre um prazer encontrar alguém que goste de objectivas antigas. No entanto, há por aí alguma confusão em relação à Helios e a Zeiss Biotar.O nome Biotar apareceu em 1924 numa objectiva de cinema. Não há diferenças técnicas entre a Biotar e a Planar. A Zeiss Biotar 58/2 foi introduzida em 1939, antes da guerra. Não houve espionagem industrial alguma, os Soviéticos quando queriam alguma coisa da DDR, levavam, ou a bem ou como reparação de guerra. Aliás, depois da 2ª guerra mundial, todas as patentes alemãs caíram em domínio publico, daí as imensas cópias japonesas da Leica ou designs da Zeiss. Ainda hoje, a maioria das objectivas 50 mm são do tipo Planar/Biotar, sejam Canon, Nikon ou Leica.

    Eu tenho a Zeiss Biotar 2/58 que equipava a Contax S e posso-lhe dizer que a Helios está remotamente aparentada, os resultados são diferentes. Tal como diz, o vidro tem a sua importância e os Russos nunca tiveram os meios para produzir vidro com as especificações exigidas pela Zeiss. A Helios é um bocado amorfa, falta-lhe contraste, coisa que a Biotar original tem em boa quantidade. Obviamente, apesar de tudo o que se possa escrever, estas duas objectivas não estão ao nível técnico das objectivas mais modernas, afinal são designs dos anos 30. A resolução de 50 L/mm é menos de metade duma Nikkor equivalente, não é por aí que a Helios tem interesse.No entanto, como refere, dão às imagens um aspecto diferente, é o aspecto que produzem objectivas tão antigas e eu também gosto do resultado. Aliás, na minha máquina, que aceita qualquer objectiva, só entram objectivas antigas, sejam europeias ou Japonesas.

    Em relação ao Bokeh, eu não sou fã desse tipo de coisas, mas para quem gosta há a Pentacon 50/1.8 que faz o desfoque redondo e também são ao preço da chuva. Pessoalmente gosto mais da Pentacon, tem um rendimento cromático exemplar, bom contraste, 0, 33 m de distância mínima de focagem e as fotos têm um look muito retro, próprio duma objectiva concebida nos anos 50.

    Fico à espera de mais artigos interessantes!

    • Caro Paulo Moreira, muito obrigado pelo seu interessantíssimo comentário. Efetivamente, a informação que consta do meu artigo baseia-se em algumas fontes cruzadas e, pela análise que fiz, a Helios mencionada é sempre dada como uma “cópia” da Zeiss Biotar. Mas acredito que com o passar do tempo possa ter surgido alguma confusão sobre o assunto. Sobre a forma como os soviéticos se apoderaram da “receita de fabrico”, admito que o meu conhecimento refletido neste texto possa não ter a consistência necessária, até porque a sua explicação faz todo o sentido. Para lhe ser honesto, o meu objetivo prioritário era o de dar a conhecer aos meus leitores a existência destas lentes, porque quem gosta de fotografar vai certamente apreciar a relação qualidade/preço da qual estou a falar. No entanto, sem querer entrar em confronto com a sua visão em relação a lentes antigas, devo dizer-lhe que, pessoalmente, o contraste e detalhe que tenho obtido com a Super Takumar 50/1.4, quando usada a f/2.8, não encontra rival entre as minhas restantes lentes, que são todas da gama mais alta da Canon. Se já experimentou (ou vier a experimentar) esta lente, gostaria muito de conhecer a sua valiosíssima opinião. No que diz respeito à Helios, admito que o seu carisma esteja sobretudo no efeito olho de gato e não em outros fatores de qualidade.

      A sua partilha da experiência com a Helios em comparação com a Zeiss é extremamente enriquecedora e é um grande contributo para a troca de opiniões sobre estas lentes. Fiquei muito curioso em relação à Pentacon que refere e vou testá-la mal tenha a oportunidade de o fazer.

      Mais uma vez, muito obrigado pelo seu comentário e esclarecimento. Espero também continuar a poder contar com a sua leitura aos meus artigos.

      Cumprimentos.

  3. Muito bom seu texto, comecei a comprar e usar essas lentes em minha Pentax Kx, hoje a excelente Pentax K5 e a xodozinha K10D digital a 7 anos, hoje tenho algumas analógicas nikon também que uso na minha D5100 e adoro os resultados

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