Terça-feira, Agosto 11, 2020

EOS R5, uma experiência da Canon em zona cinzenta

Este é um daqueles casos em que o rato pariu a montanha. Esperava-se coisa grande para ontem desde que a Canon começou a falar nas suas novas câmaras EOS R e, aparentemente, as expectativas foram honradas (ou até superadas). Há muito que, resguardado nas minhas DSLR, tenho mostrado grande resistência à tecnologia sem espelho. Em lógicas mal fundamentadas (mais próximas da inveja do que da razão) tenho dito que as mirrorless ainda não estão prontas para substituir os “trambolhos” que carrego na mochila. Quando vi as primeiras fugas de informação da EOS R5, disse para mim que era agora que fazia a transição. Quem à minha volta usa mirrorless diz que não volta atrás e começo a cultivar a ideia de que os meus preconceitos têm de ser atirados ao tapete. O que vi ontem no lançamento talvez me tenha convencido a dar o salto para as câmaras sem espelho, mas se a EOS R6 é uma câmara que poderá vender que nem pãezinhos quentes, questiono-me se a EOS R5, apesar de trazer tantas coisas boas que eu quero tanto, será convincente para o mercado em geral.

A Canon EOS r5 vai estar à venda em portugal no início de agosto por 4700 euros.

Estou em crer que a Canon está a dar-se ao luxo de testar o mercado de uma forma muito ousada. Não sei o que dizem os estudos de mercado na posse da marca nipónica, mas eu arriscaria dizer que a EOS R5 é uma câmara que cai numa zona muito cinzenta do mercado. Não é carne nem é peixe. Não foi concebida a pensar no fotógrafo que nada quer com o vídeo, tem em mente um videógrafo semi-profissional que talvez não valorizará as funções-bandeira com que a dotaram, e não vejo que traga qualquer novidade para o profissional que vê a videografia já com um olhar de cineasta e para isso já tem uma oferta interessante no mercado. Está ali numa espécie de limbo. No fim fica a confusão numa estratégia de avanços e recuos da Canon que continuo a não conseguir decifrar.

Vejamos algum contexto histórico. Lembram-se da EOS 5D? Mais concretamente a EOS 5D II? Foi uma assinatura da Canon na democratização do “cinema” independente, já lá vão 12 anos. Mal comparado, talvez fosse a R5 da época: funcionalidades quase profissionais de “filmagem” ao alcance de um fotógrafo comum. Controlos manuais de obturador, a estrutura ótica e física para produções caseiras mais próximas do cinema e etc. Foi uma revolução na indústria de cinema de trazer por casa (e não só). Correu tão bem que outras marcas perceberam que era, de facto, um nicho de mercado a desbravar. Já a Canon, ao ver o que tinha acabado de fazer com a 5DII, pensou que um segmento próprio de câmaras de cinema seria algo bem interessante. Criou a gama EOS C e, com medo da canibalização de segmentos, não deixou as DSLR evoluírem muito mais no vídeo. Até que de repente… bam… uma mirrorless que filma em RAW 8K assim de repente. Estão confusos? Eu estou.

Sem pensar muito, eu gostava muito de “abraçar” esta EOS R5. A minha primeira reação foi a de olhar para esta câmara como o salto perfeito para o mundo sem espelho. E se é para dar o salto, que seja à prova de “obsoletização” durante um bocadinho mais de tempo (lá está, a 5DII é capaz de ter sido a câmara que mais tempo resistiu ao rótulo de obsoleta). Podia querer a R6, mas só ganharia na “mirrorlesserização” do equipamento com que hoje trabalho, não compensando ainda o investimento. Mas depois comecei a pensar melhor e questiono-me se, mesmo necessitando muito do vídeo, se faz sentido investir num equipamento que para ser bem aproveitado me obriga também a repensar todos os custos do fluxo de produção.

Vamos pôr alguma matemática sobre tudo isto. Assim, de forma rápida, e partindo do princípio de que a R5 precisa de um fluxo de 2600 megabits por segundo para gravar os tais 8K em RAW, esta câmara vai ocupar 18,6 gigabytes de cartão por minuto. Tendo em conta a velocidade de armazenamento necessária para tal fluxo, os cartões CFExpress são, efetivamente, uma necessidade. Se formos para uma marca credível, o custo de um CFExpress de 512Gb andará à volta de uns 700 euros, ou seja, 700 euros por menos de meia hora de imagens. Isto só na câmara, porque depois, produção atrás de produção, há que guardar tudo isto em arquivo – a não ser que se deite fora os originais – e não vamos querer fazê-lo em discos que não sejam SSD (200 euros por terabyte a preços correntes). Estão a ver o mesmo filme que eu? E estou a partir do princípio de que quem já se anda a meter com o mundo do vídeo já estará também bem equipado de computador para mastigar tudo isto.

O argumento que se pode despejar em cima de todo este raciocínio é o de que esta câmara não é para o amador, mas já para o entusiasta do grande ecrã. Nesse caso posso assegurar-vos de que ao preço a que esta câmara vem para o mercado (PVP de 4700 euros em Portugal) não corresponderá o entusiasmo do profissional que dispõe hoje de excelentes alternativas fisicamente já preparadas para fazer cinema (low cost) a pouco mais de 6000 dólares.

E não é à toa que só estou a falar do vídeo e não da fotografia. É que esta R5 é, sem dúvida, um tiro ao segmento cineasta. Traz novidades fantásticas também para o fotógrafo, é um facto, nomeadamente os 45 megapíxeis de sensor, um estabilizador interno que promete um ganho de 8 stops quando complementado com o estabilizador ótico das objetivas que o permitirem e uma fenomenal velocidade de disparos que vai até aos 20 por segundo (com obturador eletrónico). O sistema de focagem é também bem mais amplo que o que tínhamos até aqui na Canon, com reconhecimento de pessoas e animais e com utilização de pixel duplo em toda a área do sensor, mas para quem não se interessa pelo vídeo já encontra equivalente no mercado em outros fabricantes sem ter de desembolsar 4700 euros.

Quer isto dizer que estou a pôr de parte a hipótese de trocar o que tenho por uma R5? Pois aí é que está, não. Só estou a dizer que vou pensar muito melhor, tentar separar a razão da emoção e, acima de tudo, deixar a câmara bater no mercado durante uns meses e ver o que se diz dela. Se está fora de hipótese comprá-la no fim deste mês quando assentar nas montras em Portugal? Isso sim, está completamente posto de parte.

Parece que comecei o texto pelo fim, mas sobre os factos e especificações destas novas câmaras já se escreveu tudo ontem e nada melhor do que ver os detalhes aqui. Uma simples pesquisa num motor de busca já devolve páginas e páginas sobre as novas coqueluches da Canon.

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