Neste mar de equipamentos fotográficos em que hoje vivemos, há um segmento ao qual chamo “a fatia entalada do mercado” e que, estranhamente, ainda funciona razoavelmente, merecendo a dedicação e o investimento das marcas. Porque, efetivamente, tem bastantes consumidores. Estou a falar da câmara compacta que, diria eu, quer-se vender como produto sofisticado e avançado, mas… que nunca passará de uma compacta.

É aqui que entra em cena o novo anúncio da Fuji, fresquinho, que acaba de apresentar ao mercado a Fujifilm XF10, um equipamento a meio caminho entre a compacta familiar e a câmara para o fotógrafo que já leva a fotografia muito a peito. Não é a primeira vez que a Fuji aponta a este segmento, sendo disso exemplo a X70, de há dois anos. As restantes marcas, como a Sony, Canon, Nikon, Olympus, entre outras, também têm vindo a fazer fortes apostas neste segmento que não é carne nem é peixe.

Anunciada ontem, a Fujifilm XF10 é uma câmara compacta de lente fixa de 18,5mm (equivalência de 28mm em relação a um sensor full frame) que fotografa em RAW, faz vídeo “4K” e tem um sensor APS-C (23.5 x 15.7mm) de 24 megapixéis. Pesa 280 gramas e cabe numa algibeira e tem um preço recomendado da marca de 430 euros (embora, se tudo acontecer como habitual, seja sabido que nas lojas da Europa há de estar por um valor (bem) mais acima). Foi anunciada nas cores “Champagne Gold” e “Black”.

Talvez estas câmaras sejam ideais para o fotógrafo de rua/urbano que leva a fotografia a sério e que quer deixar o equipamento mais pesado em casa. Ou talvez sejam o equipamento ideal para quem quer dar os primeiros passos na fotografia mais avançada, mas não quer equipamentos de quatro dígitos na etiqueta do preço. Ainda assim, parece-me que são câmaras que aterram num limbo porque, acharia eu, quem se interessa pelo que de avançado têm para oferecer talvez preferisse já dar o salto para uma mirrorless com lentes intermutáveis. O inverso também se aplica: quem não se interessa por fotografar em RAW ou por um sensor de maiores dimensões, já tem tudo o que precisa em telemóveis de gama média que abundam no mercado e em câmaras mais simples e baratas.

Mas vamos aos detalhes (teóricos, porque os práticos só testando no terreno).

A Fuji XF10 tem um sensor APS-C (padrão Bayer) de 24 milhões de pixéis. Ou seja, um sensor de tamanho e resolução já bastante razoáveis para permitir uma boa qualidade fotográfica, teoricamente com menos ruído em situações de menos luz. Os sensores APS-C são, aliás, os sensores presentes na maioria das câmaras DSLR e Mirrorless do chamado mercado amador avançado. Aqui há uma clara vantagem sobre as câmaras compactas mais familiares. Ou sobre quaisquer telemóveis, que não deverão ter sensores tão grandes nos anos que se aproximam. No entanto acredito que quem compra esta câmara por causa deste sensor é porque provavelmente também quer características que esta câmara não tem para oferecer, mas que já encontra em câmaras que pouco mais custam e que por isso mereceriam o esforço financeiro (mais 100 a 200 euros), uma vez que o retorno a médio prazo seria grande.

Marcas como a Fuji, a Sony, Canon e Nikon, entre outras, continuam a alimentar um segmento de câmaras compactas que se vendem como avançadas, mas que, quer se queira quer não, nunca passarão de compactas. É que por um investimento pouco maior do consumidor, o salto é grande.

A Fuji XF10 fotografa em RAW. O RAW é um formato puro, geralmente sem compressão, em que a câmara guarda toda a informação recolhida pelo sensor para tratamento posterior pelo fotógrafo. Ou seja, requer pós processamento em software adequado, uma vez que, recorrendo a uma analogia simples, o RAW é o negativo das câmaras digitais que tem de ser processado no computador para obter a imagem final. Esta é uma clara vantagem, uma vez que uma fotografia feita em RAW tem uma flexibilidade muito superior para o fotógrafo que quer estar no poder de controlar os parâmetros mais variados de uma imagem. É o formato preferido dos profissionais. Só que, mais uma vez, creio que quem quer fotografar em RAW já estará num patamar de necessidade de equipamento que não é satisfeito por esta câmara.

A Fuji XF10 tem uma objetiva Fujinon de 18,5mm (equivalente a 28mm numa câmara full frame) e com uma abertura máxima de f/2.8 num diafragma de nove lâminas. A Fuji tem-nos habituado a uma excelente qualidade nas suas objetivas (Fujinon) e acredito que esta não seja exceção. Neste caso, estamos a falar de uma objetiva composta por sete lentes que permitirá certamente minimizar os obstáculos da física ótica que são responsáveis por aberrações cromáticas e outros defeitos de distorção de imagem em câmaras de pequeno porte de menor qualidade. A abertura máxima de f/2.8 traz também uma excelente luminosidade para fazer frente a situações de menor luz e permitindo, noutras situações, uma muito maior criatividade em termos de foco (profundidade de campo). Mas… ainda que esta seja a objetiva ideal para muitas situações do quotidiano, é fixa e não tem zoom ótico. Para mim, uma clara limitação.

A Fuji XF10 filma em 4K. Neste ponto, a Fuji só pode estar a brincar connosco, uma vez que, a não ser que as características anunciadas tenham algum erro, o processador da câmara não tem capacidade para mais do que 15 fotogramas por segundo nesta resolução de vídeo. Se é só para pôr o autocolante a dizer que faz 4K, pode servir, mas no mundo real não conte com mais do que a típica resolução em HD (1920×1080 pixéis).

Resumindo. A Fuji XF10 é uma câmara bem equipada, com coisas boas (sensor, objetiva e gravação em RAW) e coisas giras (transmissão sem fios para outros dispositivos, perfis de côr proprietários da Fuji, enquadramento quadrado, entre outros). É aquilo a que chamo a câmara “quase-quase”. Porque mais 100 a 200 euros conseguem chegar a uma Mirrorless de lentes intermutáveis que vem já para a mão do comprador com uma objetiva 16-50mm com as restantes coisas boas que a XF10 também tem excepto o tal 4K no vídeo de 15 fotogramas por segundo, cuja aplicabilidade é extremamente limitada.

Mas a decisão, obviamente, é toda sua.

 

 

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