A história de uma equipa de futebol de 12 crianças e o seu treinador encurralada numa gruta na Tailândia revestiu-se de todos os contornos para emocionar o mundo.

Facto 1) Há dois anos libertei-me de rótulos específicos enquanto fotógrafo (que me dizia de paisagem e natureza) e assumi-me fotógrafo de tudo o que me emocionasse e pudesse ser convertido numa história.
Facto 2) Os últimos acontecimentos na Tailândia que todos – um mundo inteiro – testemunhámos vieram acentuar conclusões de estudos sobre a “compaixão humana” cuja elaboração já soma mais de 60 anos de trabalho.
E qual a ligação entre estes dois factos? Em ambos a fotografia e a imagem de uma história é “pedra de toque”. Por isso, digo-o sem dúvidas nem hesitações: o Fotógrafo é, inquestionavelmente, o mais poderoso elo de transmissão da emoção humana. E isso faz-me incomensuravelmente feliz.

A pergunta surgiu inevitavelmente. Como é que um grupo de 12 crianças e um adulto preso numa gruta na Tailândia emociona um mundo inteiro e põe povos de todas as nações agarrados a televisores enquanto se encolhe os ombros a milhões de crianças que morrem à fome, fogem de guerras e têm a vida presa por um fio? A interrogação já pulula pelas redes sociais e a maioria apressa-se a culpar o destaque desproporcionado dos meios de comunicação. Mas a verdade é que também as histórias de refugiados perdidos no mar, as imagens de horror na Síria e de crianças a sucumbir à fome nos assaltam os olhos quase diariamente pelos mesmos ecrãs onde acompanhámos o resgate da equipa de futebol infantil e, no entanto, foi com os diretos e relatos da Tailândia que nos perturbámos e emocionámos nesta última semana.

O poder da fotografia ajudou Paul Slovic nos últimos anos a consolidar uma das suas mais brilhantes descobertas, o “Psychic Numbing”, o paradoxo que explica as limitações da compaixão humana e o facto de a emoção com a vida humana perder força com a falta de uma história concretizável.

Não vale a pena andarmos a apontar o dedo da culpa a torto e a direito, porque a falha reside, na verdade, na forma de funcionamento do cérebro humano, garante Paul Slovic, um psicólogo da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, que há mais de sessenta anos estuda o tema e cujas conclusões estão hoje praticamente comprovadas. E foi o poder da fotografia – uma imagem estática, que nos dá tempo para pensar enquanto a percorremos com os olhos de canto a canto numa mais valia que a imagem em movimento não tem – que precipitou Slovic nos últimos anos para uma das suas mais brilhantes descobertas, o “Psychic Numbing”, o paradoxo que explica as limitações da compaixão humana e o facto de a emoção com a vida humana perder força com a falta de uma história concretizável.

© Mohammed Badra. Um pai abraça pela última vez a filha, morta nos confrontos na Síria.

Eu próprio consigo identificar momentos em que fui vítima do “Psychic Numbing”. Há dois anos fiquei assombrado (acho que para o resto da vida) por uma imagem do fotógrafo sírio Mohammed Badra que ainda hoje me faz saltar as lágrimas dos olhos. Uma simples fotografia agarrou-me e virou-me do avesso, fazendo, inclusive, alterar de forma dramática os meus propósitos e objetivos enquanto fotógrafo. No entanto, a fotografia em causa não trazia qualquer novidade para mim. Não foi apenas no momento em que vi esta imagem que soube que morriam crianças debaixo de um inferno bélico na Síria. Mas Paul Slovic explica o meu comportamento: de todas as crianças que morrem na Síria, eu parei para ver uma – apenas uma – história. Nesta imagem, um pai dá o último abraço à filha, já morta, que acaba de perder. Materializou-se naquele momento na minha cabeça uma história concreta de entre as milhares semelhantes que consubstanciam o horror da guerra na Síria. É que eu também sou pai (e mesmo que não fosse…).

© Nilüfer Demir. A imagem de Aylan Kurdi, uma criança vítima de um naufrágio quando a família fugia da Síria, monstrou uma história concreta ao mundo.

Quando a imagem de Aylan Kurdi aparece aos olhos do mundo, os dados do motor de busca Google mostram um despertar brusco para os temas da Síria e dos refugiados, demonstrando-se o poder da revelação de um caso concreto sobre um tema que estava longe de ser uma novidade.

Paul Slovic ajuda-nos a perceber melhor este comportamento humano com outra fotografia (novamente a Síria). Em 2015, uma fotografia de Nilüfer Demir de uma criança síria morta (afogada) numa praia, depois de uma tentativa de fuga das malhas da guerra, atinge-nos que nem uma chicotada. Mais uma vez, uma história – uma única história – assola-nos a mente, como se não soubéssemos já dos naufrágios de barcos de refugiados. De repente, todos acordamos para o problema com uma simples imagem e Slovic nota um comportamento conclusivo: com o momento exato da divulgação da fotografia, o motor de busca Google regista um pico de procuras das palavras “Syria”, “Refugees” e “Aylan” [Aylan Kurdi, o nome da criança] e, durante vários meses após a divulgação, os temas da Síria e dos refugiados mantêm uma popularidade superior à que detinham antes de ser conhecida a imagem.

A explicação de Paul Slovic assenta no facto de o ser humano só conseguir concretizar mentalmente números que para si não sejam abstratos. E lança o desafio: “Há neste momento 65,3 milhões de pessoas deslocadas das suas casas, de acordo com os números das Nações Unidas, o que é o maior número de refugiados da história da Humanidade. Consegue imaginar o número 65,3 milhões [de pessoas]? Não, porque transforma-se numa quantidade abstrata para a mente humana. O mesmo não acontece quando estamos a falar só de uma pessoa, ou de poucas pessoas de uma vez”. E esta é a razão, à luz das teorias de Slovic, para que o mundo se tenha enamorado da história da equipa de futebol tailandesa de 12 crianças e o seu treinador encurralada numa gruta, na mesma semana em que centenas de pessoas desapareciam em cheias no Japão, o que mereceu uma atenção marginal quando em comparação com a história na Tailândia. Porque conseguimos imaginar o número de uma forma concreta, porque há imagens precisas que todos vimos, porque é uma história delimitada no número de pessoas envolvidas. Há, portanto, uma história concreta que se materializa na nossa mente.

© James Nachtwey. A imagem captada em 1992 na Somália e que foi capa da New York Times Magazine foi a grande responsável pelo maior movimento da Cruz Vermelha desde a II Guerra Mundial para combater a fome em África.

Embora desconhecendo estas teorias há relativamente pouco tempo (na verdade, foi o caso da gruta na Tailândia que me fez aprofundar as leituras dos estudos de Paul Slovic), quando há dois anos assumi que não estava a fazer a fotografia que queria fazer para mim, sentia uma necessidade veemente de utilizar o meu olhar de fotógrafo para contar as tais histórias que se materializassem na mente de quem vê imagens criadas por mim. O ano de 2017 foi de transição, em que passei a recusar rótulos enquanto fotógrafo (embora tenha de abrir a exceção para os meus clientes). Um fotógrafo é um fotógrafo, ponto final. Um fotógrafo emociona-se e tenta transmitir através da imagem (tal como o músico através de uma canção ou um escritor através de um texto) essa emoção. E esse é hoje o propósito da minha fotografia, o de promover histórias na cabeça de quem vê as minhas imagens. Isso permite-me hoje continuar a fazer fotografia de paisagem sem estar preso a rédeas, ou de retrato, ou de acontecimentos ou de um simples calhau no chão. Se a minha fotografia servir para enfatizar num simples retângulo dentro do qual os olhos de outros viajam algo de maior e mais universal, materializando sensações que não existiam, continuarei a ser imensamente feliz. Esse é o grande desafio do fotógrafo, perpetuar no tempo o detalhe que conta uma história e a História.

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