Tempos houve em que quis comportar-me com as câmaras digitais como se fossem da velha guarda. Confesso uma vasta saudade dos tempos das limitações dos “antiquados” equipamentos de película, um revivalismo pouco lógico, eu sei, mas que puxa pelo meu lado mais romântico da vida. Comecei por usar a minha DSLR “obrigando-a” a fotografar a uma temperatura de cor de 5500K e ISO 400, não tocando nestes comandos durante toda uma sessão – ou ISO 50 quando tinha a mania que queria replicar o Velvia. Fizesse chuva ou fizesse sol, fosse de dia ou de noite, e até para fazer os preto e brancos usava os habituais filtros amarelos e encarnados dos tempos em que não havia outra solução para controlar os contrastes e os brancos. E perguntam-se vocês porque aderi então ao digital. Porque sim, é a minha resposta. Porque ao ultrapassar algumas barreiras, o digital confere ao fotógrafo um desmedido poder e porque não estamos perante a mesma comparação do vinil com o Compact Disc: a resolução e profundidade de uma máquina fotográfica digital moderna já ultrapassou em muito toda a informação que a película consegue reter, ao contrário do que acontece com o analógico e o digital na gravação de música.

Aos dias que correm, posso dizer que me deixei de manias. Altero o ISO e a temperatura de cor conforme a situação, uso fervorosamente o histograma e amplio a imagem do ecrã da câmara para afinar a focagem. Mas sempre com um back up mental: nutro com cada vez mais veemência a intenção de comprar a minha sempre sonhada Hasselblad 500 CM para um regresso em paralelo à velha emulsão.

Só existirão 600 unidades, devidamente numeradas, da Leica M Edition 60. Vem equipada com uma lente Summilux 35mm f/1.4 asférica e pretende simular as condicionantes de um modelo analógico. Eletronicamente, é suportada pelas “entranhas” do modelo M, ou seja, sensor full frame de 24MP e o processador Leica Maestro. O preço é de 15 mil euros.

Toda esta conversa para chegar à nova câmara da Leica, a M Edition 60, que a marca alemã brandiu na semana passada a quem terá 15 mil euros para dar por ela e aos outros, os sonhadores. Estarão disponíveis a partir do próximo mês unicamente 600 exemplares em todo o mundo – não sei se é das que são fabricadas cá, em Famalicão – e a intenção é comemorar os 60 anos sobre a lendária M3, a ragefinder da Leica que em 1954 arremessou o fabricante para o mais elevado estatuto e sinónimo de objetos de puro desejo para o fotógrafo com F grande.

Mas então o que é a Leica M Edition 60? Para começar, e para meu alívio, a prova de que o querer usar o digital como se de analógico se tratasse não é ainda um sinal de que fritei os circuitos cerebrais. Quem se aventurar na aquisição desta câmara vai ter de pôr de parte os histogramas, os ecrãs electrónicos de visionamento da imagem e outros luxos que a substituição dos haletos de prata por bits veio permitir.

“Operar a Leica M Edition 60 obriga, intencionalmente, ao mesmo cuidado e atenção que eram requeridos com um modelo analógico”, explica a marca num comunicado. Há disparador, seletor de abertura e de velocidade, anel de focagem e a única coisa que está a mais face a um modelo de velha guarda é o seletor de ISO, o que ainda permite – e viva o luxo – escolher a sensibilidade entre cada disparo. E confesso que eu até desafiaria a marca a só deixar mexer neste botão de 36 em 36 disparos, só para a malta mais jovem ver como elas doíam.

Com este modelo não há outras distrações. Não há settings, configurações, menus, leds, luzinhas… É para prestar atenção ao que é importante, ao momento que é para congelar num disparo. Há um óculo para espreitar e os velhos comandos de sempre. E a surpresa de só mais tarde ver materializada a intenção e todos os ingredientes da decisão de um fotógrafo, com toda a inquietação e magia que isso permite. E é para agudizar ainda mais o apetite? Então cá vai: a Leica M Edition 60 vem equipada com uma lente Summilux 35mm f/1.4, uma objetiva que tem a alcunha de dreamy glass.

Leica+M+Edition+60_right

Será mais uma peça única e de grande beleza da Leica. Uma câmara com um preço de cinco dígitos, mas que põe em cima da mesa o que de mais sublime existe na arte de eternizar visões. Tão elegante que chega a ser comovente para quem viveu os tempos de falta de alternativa à película.

Eu posso voltar a propor-me o desafio de brincar com a minha câmara com ecrã traseiro desativado, proibindo-me de mexer em algo mais que não seja a abertura, velocidade e focagem só para revisitar a emoção da surpresa adiada da imagem conseguida? Poder posso, mas a Leica, com este modelo, desperta muito mais do que isso de uma forma efetivamente sem precedentes.

Porque há coisas que podem nunca mudar, quando se quer.

 

 

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