É confuso, admito. A nova “bomba” da Canon, a 5DS (e a 5DR), não deixa de esconder, receio, algum desnorte da marca. É feio falar das coisas sem as experimentar, mas confesso que não estou a perceber onde se pretende chegar com este modelo. O comunicado de imprensa é vago: a grande proeza são os mais de 50 milhões de pixéis. E a ser verdade que o preço, com a lente anunciada para o kit, poderá ultrapassar em Portugal os quatro mil euros, está-se a apontar para que público-alvo?

A história desta gama da Canon começou com a 5DII – a rápida solução que escondeu o fracasso da Canon 5D, que se vendeu tão pouco que nem séries limitadas (mas sem querer). Uma câmara inovadora, a DSLR que nunca se tinha feito, com um sensor nobre e com uma gama de dinâmicos que superou todas as expectativas. Uma máquina que não só batia todos os pontos em fotografia como apresentava um novo mundo, o do vídeo cinemático com tudo o que é preciso para o fazer. Em pouco tempo, a 5DII começou quase a ser mais conhecida pelas suas capacidades de vídeo do que fotográficas, sendo rapidamente adotada pela indústria cinematográfica independente e low cost. Até que o grande rival, Nikon, lançou a série d800…

Não basta aos fabricantes atualizarem as suas câmaras de três em três anos. É também preciso saberem o que realmente querem do mercado. Espero que a Canon não perca o comboio de 2015, porque o grande rival, a Nikon, tem estado nos apeadeiros certos.

 

É com a d800 da Nikon, em 2012, que começa o desnorte da Canon. A marca lança a 5DIII um mês depois para combater, mas, na verdade, pouco acrescenta de novo. O terceiro modelo da gama canoniana surge com um sensor mais robusto, com um sistema de focagem sem precedentes, com saídas limpas para quem quer utilizar suportes de gravação externos e… não me recordo de muito mais. E pronto, a Nikon abriu a garrafa de champagne, porque, para já, a guerra estava ganha, sobretudo na gama de dinâmicos de quase 15 stops que deixou muitos de boca aberta.

Agora surge a 5DS e o comunicado de imprensa está publicado. Das duas uma… ou é de facto dos comunicados de imprensa mais incompletos que vi até hoje, ou a Canon está mesmo sem saber o que dizer. Usa a bengala dos 50 milhões de pixéis para o efeito UAU e… a sério que ter um temporizador incorporado para fazer time lapses é o melhor que têm para dizer para já? Portanto, a pergunta fica no ar: O que quer a Canon? Qual é o público? Qual a estratégia?

São muitos euros por uma máquina que não sabemos se resulta. Eu quererei mesmo 50 milhões de pixéis, quando sabemos porque é que os fabricantes em geral ainda não se atiraram para essa gama? Sabem quão pequeno fica um pixel entre 50 milhões em 864 milímetros quadrados sem comprometer a gravação de luz? A indústria de cinema low cost neste momento está satisfeita com outros fabricantes que se mexeram mais depressa. E os fotógrafos… bom… por 8000 euros já compro uma Phase One de médio formato.

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