At√© h√° pouco tempo, o velho vidro com mais de meio s√©culo em cima era para mim um dos pontos de minha maior insensibilidade no que diz respeito √† qualidade das imagens que se pode extrair de um equipamento fotogr√°fico. Sem desculpa, porque quando comecei a fotografar, esta coisa do digital assemelhar-se-ia mais a fic√ß√£o cient√≠fica. Pode ser subjetivo ou meramente psicol√≥gico, mas desde que trabalho com c√Ęmaras digitais ‚Äď desde 2002 ‚Äď assisti a tanta evolu√ß√£o nos equipamentos que considero nada me faltar hoje (muito antes pelo contr√°rio) face ao que tinha no tempo de expor luz exclusivamente em emuls√Ķes qu√≠micas. Exceto, no entanto… aquele aspeto org√Ęnico inexplic√°vel ‚Äď e que n√£o consigo mesmo descrever ‚Äď das imagens de outrora e que ainda hoje me faz olhar para as imagens mais antigas com outro encanto.

H√° quem lhes chame "lentes vintage". Com elas, consegui recuperar boa parte do aspeto org√Ęnico da pel√≠cula. Esta imagem fom feita com a Helios-44M.

H√° quem lhes chame “lentes vintage”. Com elas, consegui recuperar boa parte do aspeto org√Ęnico da pel√≠cula. Esta imagem fom feita com a Helios-44M.

Coisa por explicar, esta, e tal como a avestruz enfia a cabeça na areia, também eu me auto convenci de que tal não passaria de sugestão, até porque é verdade que, ao contrário do que aconteceu com o áudio, em que o analógico ainda hoje é imbatível, em registo de imagem as valências do analógico já foram largamente superadas várias vezes pelas virtudes dos bits e dos bytes.

Muito recentemente, m√£o amiga deu-me um valente empurr√£o para o mundo das ‚Äúlentes vintage‚ÄĚ. Vidro quase esquecido em lentes que foram bem sucedidas nos anos 40, 50 e 60 do s√©culo passado. Ia l√° eu saber que estas lentes a) n√£o s√≥ encaixam que nem uma luva em boa parte dos modernos equipamentos com adaptadores espec√≠ficos; b) que uma vez em uso me iam fazer recuperar a inexplic√°vel beleza das imagens que julgava perdida e; c) ‚Äď agora vem a parte que mais me espantou ‚Äď s√£o f√°ceis de encontrar em sites de troca de coisas usadas, Feira da Ladra e similares e antiqu√°rios por poucas dezenas de euros. Lentes de focal fixa com uma qualidade extrema, incrivelmente luminosas (f/1.4, f/1.2…) e que permitem o registo de imagens com um detalhe e luz que n√£o consigo obter em nenhuma das minhas restantes lentes com quatro d√≠gitos na etiqueta de pre√ßo. O compromisso de troca? Esque√ßam a focagem e a exposi√ß√£o autom√°tica. Mas tamb√©m vos digo que ap√≥s nos habituarmos a uma boa lente manual, at√© nos esquecemos que os automatismos existem.

Da minha experi√™ncia recente, destaco-vos duas destas lentes que considero consubstanciarem uma das melhores imers√Ķes neste maravilhoso (velho) novo mundo.

Super Takumar 50mm f/1.4

Super Takumar 50mm f/1.4, imortalizada pela Pentax

Super Takumar 50mm f/1.4, imortalizada pela Pentax

√Č uma lente dos anos 60 que chega ent√£o ao mercado pela m√£o da Asahi Optical, uma empresa japonesa nascida em 1919 com o intuito de fornecer a ind√ļstria de cinema e que cresceu em pulo com a II Guerra Mundial com o aprovisionamento de equipamento √≥tico para armamento. Regressa aos seus velhos prop√≥sitos ap√≥s a guerra, abastecendo marcas como a Konica e a Minolta, e em 1952 lan√ßa a primeira c√Ęmara fotogr√°fica reflex de 35mm (SLR) alguma vez concebida, a t√£o conhecida Pentax. Muita coisa se passou entretanto, mas fica resumidamente explicada a raz√£o pela qual as c√Ęmaras Pentax sempre envergaram das melhores lentes para fotografia de sempre.

Pessoalmente, considero esta Super Takumar 50mm f/1.4 uma das melhores pe√ßas do g√©nero. Com um encaixe M42, √© extremamente f√°cil adaptar a uma Canon com um adaptador espec√≠fico e extremamente acess√≠vel (tanto na disponibilidade como no pre√ßo). As imagens que permite registar s√£o incrivelmente detalhadas, com um ‚Äúponto doce‚ÄĚ na abertura f/2.8 que n√£o produz vinhetagem ou distor√ß√£o esf√©rica de qualquer esp√©cie, pese embora uma ligeira colora√ß√£o amarelada nas fotografias resultante do revestimento antirreflexo que, n√£o se gostando (eu gosto), exige corre√ß√£o no momento da edi√ß√£o.

Helios 44M 58mm f/2

Helios

Helios-44M, de fabrico russo, o elemento de refer√™ncia das c√Ęmaras Zenit.

√Č uma lente que come√ßa a ser produzida em 1958 na antiga Uni√£o Sovi√©tica com um prop√≥sito muito espec√≠fico: produzir uma c√≥pia exata da Carl Zeiss Biotar 58mm f/2. Diz mesmo a lenda que a coisa meteu espionagem industrial √† s√©ria e que todos os segredos de constru√ß√£o da marca alem√£ foram ‚Äúroubados‚ÄĚ pelos sovi√©ticos. C√≥pia feita atrav√©s da f√≥rmula secreta da Zeiss, a Helios √© produzida em massa at√© 1992, equipando a bem conhecida c√Ęmara Zenit. Assim nasce uma lente praticamente irrepreens√≠vel, capaz de um detalhe de 50 linhas por mil√≠metro, mas… com uma falha de constru√ß√£o que nem a f√≥rmula roubada √† Zeiss conseguiu evitar: a Helios 44M n√£o disp√Ķe de um elemento √≥tico espec√≠fico que evita o chamado ‚Äúefeito olho de gato‚ÄĚ. Ou seja, os raios luminosos que n√£o entram perpendicularmente ao centro da lente (os que entram de lado, obliquamente) n√£o produzem um c√≠rculo de foco perfeito, mas sim oval, acentuando-se a deforma√ß√£o √† medida que a luz √© mais lateral (at√© o c√≠rculo de foco assemelhar-se ao olho de um gato). Em situa√ß√Ķes espec√≠ficas em que o fundo de uma cena fotografada √© constitu√≠do por pontos de luz fora de foco ‚Äď bokeh ‚Äď (como os raios de luz que passam pelos ramos de uma √°rvore), o efeito √© semelhante ao de uma tor√ß√£o que faz parecer que estes pontos de luz andam em c√≠rculo. A verdade √© que este defeito se tornou carism√°tico e a lente foi catapultada para o sucesso por isso mesmo.

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Nos pontos fora de foco da folhagem da árvore, sobretudo os que estão mais longe do centro, é claramente visível um efeito que dá a ilusão de um twist geral no plano de fundo.

Amplia√ß√£o da imagem: Os pontos de luz fora de foco junto ao centro da imagem (junto ao sinal de tr√Ęnsito) mant√™m a sua forma redonda.

Amplia√ß√£o da imagem: Os pontos de luz fora de foco junto ao centro da imagem (junto ao sinal de tr√Ęnsito) mant√™m a sua forma redonda.

Ampliação da imagem: Os pontos de luz fora de foco mais distantes do centro da imagem assumem o aspeto "olho de gato", o que origina na imagem total a ilusão de uma torção/rotação do plano de fundo.

Amplia√ß√£o da imagem: Os pontos de luz fora de foco mais distantes do centro da imagem assumem o aspeto “olho de gato”, o que origina na imagem total a ilus√£o de uma tor√ß√£o/rota√ß√£o do plano de fundo.

A parte melhor, mais uma vez, √© que √© extremamente f√°cil comprar esta lente por poucos euros. E c√° vai um segredo: procure num site de usados uma Zenit que o dono j√° n√£o queira e vai perceber que, com sorte, 35 euros chegam para fazer a festa. A c√Ęmara, caso n√£o a queira usar, p√Ķe na estante para enfeitar e a lente regressa ao ativo numa nova c√Ęmara, precisando-se apenas de um adaptador M42.

As c√Ęmaras Zenit constituiram um marco da ind√ļstria fotogr√°fica da Uni√£o Sovi√©tica. As suas especificidades tornaram-na dif√≠cil de usar, mas a lente que as equipava ainda hoje √© carism√°tica.

As c√Ęmaras Zenit constituiram um marco da ind√ļstria fotogr√°fica da Uni√£o Sovi√©tica. As suas especificidades tornaram-na dif√≠cil de usar, mas a lente que as equipava ainda hoje √© carism√°tica.

E todas as c√Ęmaras recebem estas lentes?

Ora aí está. Aqui temos um problema.

Todas as lentes para c√Ęmaras fotogr√°ficas t√™m uma medi√ß√£o chamada registo ou, na terminologia internacional, a ‚ÄúFlange Focal Distance‚ÄĚ. Resumidamente, √© a dist√Ęncia que vai desde o ponto de ‚Äúencosto‚ÄĚ na c√Ęmara, na parte traseira da objetiva, at√© ao plano de imagem (o sensor ou a pel√≠cula). Desta dist√Ęncia resulta a profundidade de foco (n√£o confundir com profundidade de campo), que corresponde √† dist√Ęncia que permite que a lente produza imagens impecavelmente n√≠tidas em todas as situa√ß√Ķes. Ora, para uma lente ser adapt√°vel a uma c√Ęmara √© necess√°rio que tenha esta dist√Ęncia igual ou superior √†quela para que a c√Ęmara esteja preparada.

Exemplificando: as lentes com o sistema de montagem M42, como as duas descritas neste artigo, t√™m um registo de 45,46 mil√≠metros (s√≥ produzem imagens n√≠tidas em toda a plenitude a 45,46 mil√≠metros do plano de imagem). Como no caso das Canon SLR, por exemplo, a dist√Ęncia que vai do ponto de encosto da lente ao plano de imagem √© de 44 mil√≠metros, basta usar-se um adaptador que afaste a lente em 1,46 mil√≠metros da c√Ęmara para que tudo funcione bem. No caso de uma Nikon SLR, por exemplo, a coisa complica-se, uma vez que tem uma dist√Ęncia do ponto de montagem da lente at√© ao plano de imagem de 46,5 mil√≠metros, o que significa que uma destas lentes teria de ser recuada em 1,04 mil√≠metros para dentro da c√Ęmara, o que iria fazer com que o espelho que serve o visor, ao abrir e fechar, batesse na lente e partisse. Para estes casos, o adaptador tem de passar por mais um elemento √≥tico para alterar a profundidade de foco da lente, o que ‚Äúmexe‚ÄĚ na qualidade de imagem, mas de uma forma perfeitamente aceit√°vel se o adaptador for de boa qualidade.

Profundidade de foco (também conhecido por registo ou Flange Focal Distance) das SLR Canon e Nikon.

Profundidade de foco (também conhecido por registo ou Flange Focal Distance) das SLR Canon e Nikon.

Neste campo da adaptabilidade ficam a ganhar os felizes propriet√°rios das c√Ęmaras sem espelho (Mirrorless Cameras) com as quais qualquer lente tem um registo bastante superior ao que a c√Ęmara exige, bastando pequenos tubos extensores para usar as objetivas.

6 Responses

  1. M√°rcio Ranhada

    Belissimo artigo de um assunto ainda pouco valorizado em portugal! Eu comprei a minha primeira objectiva manual h√° dois anos e estou completamente viciado… j√° vou com 11 desde 24mm at√© 200mm e todas s√£o fantasticas!! Pessoalmente gosto muito das carl zeiss jena!!

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    • rsalvo

      Obrigado, M√°rcio, pela sua partilha. Efetivamente √© um mundo infind√°vel. Esteja √† vontade para partilhar connosco a sua experi√™ncia e recomenda√ß√Ķes sobre as lentes que usa. Cumprimentos.

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  2. Paulo Moreira

    Gostei de ler o seu texto, é sempre um prazer encontrar alguém que goste de objectivas antigas. No entanto, há por aí alguma confusão em relação à Helios e a Zeiss Biotar.O nome Biotar apareceu em 1924 numa objectiva de cinema. Não há diferenças técnicas entre a Biotar e a Planar. A Zeiss Biotar 58/2 foi introduzida em 1939, antes da guerra. Não houve espionagem industrial alguma, os Soviéticos quando queriam alguma coisa da DDR, levavam, ou a bem ou como reparação de guerra. Aliás, depois da 2ª guerra mundial, todas as patentes alemãs caíram em domínio publico, daí as imensas cópias japonesas da Leica ou designs da Zeiss. Ainda hoje, a maioria das objectivas 50 mm são do tipo Planar/Biotar, sejam Canon, Nikon ou Leica.

    Eu tenho a Zeiss Biotar 2/58 que equipava a Contax S e posso-lhe dizer que a Helios est√° remotamente aparentada, os resultados s√£o diferentes. Tal como diz, o vidro tem a sua import√Ęncia e os Russos nunca tiveram os meios para produzir vidro com as especifica√ß√Ķes exigidas pela Zeiss. A Helios √© um bocado amorfa, falta-lhe contraste, coisa que a Biotar original tem em boa quantidade. Obviamente, apesar de tudo o que se possa escrever, estas duas objectivas n√£o est√£o ao n√≠vel t√©cnico das objectivas mais modernas, afinal s√£o designs dos anos 30. A resolu√ß√£o de 50 L/mm √© menos de metade duma Nikkor equivalente, n√£o √© por a√≠ que a Helios tem interesse.No entanto, como refere, d√£o √†s imagens um aspecto diferente, √© o aspecto que produzem objectivas t√£o antigas e eu tamb√©m gosto do resultado. Ali√°s, na minha m√°quina, que aceita qualquer objectiva, s√≥ entram objectivas antigas, sejam europeias ou Japonesas.

    Em rela√ß√£o ao Bokeh, eu n√£o sou f√£ desse tipo de coisas, mas para quem gosta h√° a Pentacon 50/1.8 que faz o desfoque redondo e tamb√©m s√£o ao pre√ßo da chuva. Pessoalmente gosto mais da Pentacon, tem um rendimento crom√°tico exemplar, bom contraste, 0, 33 m de dist√Ęncia m√≠nima de focagem e as fotos t√™m um look muito retro, pr√≥prio duma objectiva concebida nos anos 50.

    Fico à espera de mais artigos interessantes!

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    • rsalvo

      Caro Paulo Moreira, muito obrigado pelo seu interessant√≠ssimo coment√°rio. Efetivamente, a informa√ß√£o que consta do meu artigo baseia-se em algumas fontes cruzadas e, pela an√°lise que fiz, a Helios mencionada √© sempre dada como uma “c√≥pia” da Zeiss Biotar. Mas acredito que com o passar do tempo possa ter surgido alguma confus√£o sobre o assunto. Sobre a forma como os sovi√©ticos se apoderaram da “receita de fabrico”, admito que o meu conhecimento refletido neste texto possa n√£o ter a consist√™ncia necess√°ria, at√© porque a sua explica√ß√£o faz todo o sentido. Para lhe ser honesto, o meu objetivo priorit√°rio era o de dar a conhecer aos meus leitores a exist√™ncia destas lentes, porque quem gosta de fotografar vai certamente apreciar a rela√ß√£o qualidade/pre√ßo da qual estou a falar. No entanto, sem querer entrar em confronto com a sua vis√£o em rela√ß√£o a lentes antigas, devo dizer-lhe que, pessoalmente, o contraste e detalhe que tenho obtido com a Super Takumar 50/1.4, quando usada a f/2.8, n√£o encontra rival entre as minhas restantes lentes, que s√£o todas da gama mais alta da Canon. Se j√° experimentou (ou vier a experimentar) esta lente, gostaria muito de conhecer a sua valios√≠ssima opini√£o. No que diz respeito √† Helios, admito que o seu carisma esteja sobretudo no efeito olho de gato e n√£o em outros fatores de qualidade.

      A sua partilha da experi√™ncia com a Helios em compara√ß√£o com a Zeiss √© extremamente enriquecedora e √© um grande contributo para a troca de opini√Ķes sobre estas lentes. Fiquei muito curioso em rela√ß√£o √† Pentacon que refere e vou test√°-la mal tenha a oportunidade de o fazer.

      Mais uma vez, muito obrigado pelo seu comentário e esclarecimento. Espero também continuar a poder contar com a sua leitura aos meus artigos.

      Cumprimentos.

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  3. Ivan Felipe Ferreira

    Muito bom seu texto, comecei a comprar e usar essas lentes em minha Pentax Kx, hoje a excelente Pentax K5 e a xodozinha K10D digital a 7 anos, hoje tenho algumas analógicas nikon também que uso na minha D5100 e adoro os resultados

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