Começou a fotografar apenas aos 48. Mas ainda a tempo de revolucionar a forma de fazer fotografia em pleno século XIX, criando um estilo próprio que, à época, colheu mais rejeição do que aplausos. Julia Margaret Cameron foi pioneira, em 1863, num estilo de retrato que apostava em poses pouco habituais dos seus modelos para o que era então comum, o que complementava com técnicas de soft focus (técnica que concentra a nitidez no centro da imagem em simultâneo com falta de foco nas extremidades) e pedindo por vezes ao fotografado que fizesse ligeiros e ténues movimentos enquanto durava a exposição.

"Annie, my first success". Em 29 de janeiro de 1864, Cameron considera ter feito a primeira imagem que a deixa satisfeita.

“Annie, my first success”. Em 29 de janeiro de 1864, Cameron considera ter feito a primeira imagem que a deixa satisfeita.

O resultado traduziu-se em imagens verdadeiramente surpreendentes que ainda hoje influenciam fotógrafos de todo o mundo e que são precursoras de um estilo de retrato que é ainda atual em muitas correntes retratistas. E fica questionável se será ou não exagero dizer-se que nascia aqui o verdadeiro retrato artístico que hoje conhecemos.

Sem qualquer conhecimento de fotografia, Julia Margaret Cameron recebe de presente da sua filha uma câmara fotográfica. É aqui que começa o gosto pela fotografia que marca o resto da vida da retratista britânica, com a ousadia a vincar as suas obras.  Influenciada e ensinada pelo fotógrafo David Wilkie Wynfield, Cameron acaba por se destacar pela coleção de figuras públicas entre os seus retratados, numa lista que inclui Charles Darwin, Ellen Terry e George Frederic Watts. A verdade é que o estilo de Cameron era mesmo muito pouco consensual, e o epíteto de “horrível” foi o que mais incidiu sobre as fotografias que produzia. Como em muita coisa na vida, primeiro estranha-se e depois entranha-se, e a coleção de imagens que fica transformou-se numa referência, apesar de infelizmente não ser suficientemente divulgada.

A sobrinha de Cameron e mãe de Virginia Wolf, Julia Prinsep Jackson, é a retratada preferida da fotógrafa britânica.

A sobrinha de Cameron e mãe de Virginia Wolf, Julia Prinsep Jackson, é a retratada preferida da fotógrafa britânica.

Incompreendida. Sobre as fotografias de Cameron, o The Photographic Journal escreve, à altura, que “Nestas imagens, tudo o que é correto na fotografia foi negligenciado (…) pedimos desculpa por nos referirmos nestes termos ao trabalho de uma senhora, mas sentimo-nos compelidos a fazê-lo em defesa do interesse da arte”.

Morre em 1879, aos 64 anos, mas deixa para trás uma curta carreira de 11 anos que muitos inspirou nas variadíssimas décadas seguintes. As imagens que ficam são de tal forma disruptivas para a época que muitos desconhecedores da autora hoje olham para as imagens com a dúvida de que possam mesmo ter sido produzidas em meados do século XIX.

Leave a Reply

Your email address will not be published.