Garry Winogrand e a sua Leica M4

Garry Winogrand. É conhecido como o fotógrafo que conseguiu usar o poder da imagem para sublinhar a América numa era de mutação singular. Em milhares e milhares de imagens, lê-se nas suas fotografias a História de uma sociedade – a americana – onde tudo mudava, onde as mulheres lutavam pelos seus direitos, onde alguns movimentos começavam a perder o medo de se exporem, onde a “Justiça para todos” se vestia no cinismo da discriminação e onde o sentimento de liberdade total se cruzou intrinsecamente com a falta dela. Porque escrevo sobre Garry Winogrand? Por dois motivos. Em primeiro lugar, por ser o fotógrafo que me inspira com o lema que me parece ser o mais sério de sempre da fotografia, o de que “tudo é fotografável”; e em segundo lugar pelo sentido de oportunidade, uma vez que o filme sobre a sua vida e obra, “Garry Winogrand: All Things Are Photographable”, com a assinatura de Sasha Waters Freyer, começou agora a ser exibido nos cinemas norte-americanos.

© Garry Winogrand

Este filme – que anseio ver – será garantidamente uma peça obrigatória para quem fotografa, independentemente do estilo ou área. O próprio título do documentário, que reflete o moto mais persistente de Winogrand, é a verbalização da filosofia que me tenho proposto seguir já há algum tempo. Embora Garry seja conhecido como fotógrafo de “Street Photography”, a sua posição era a de combater rótulos. Segundo ele, a sua obra servia para contar histórias, para deixar testemunhos, sempre assente no princípio de que TUDO E TODAS AS COISAS SÃO FOTOGRAFÁVEIS.

Efetivamente Garry Winogrand foi um fotógrafo das ruas americanas (sobretudo Nova Iorque). Aquando da sua morte súbita com a idade de 56 anos, em 1984, descobriu-se que escondia milhares de rolos ainda por revelar (e outros revelados, mas apenas em película) num espólio que viria a somar-se ao trabalho já exposto e reiteradamente e merecidamente reconhecido. O trabalho que nos mostrou em vida era, portanto, a ponta de um iceberg absolutamente prodigioso. Espero que ao longo dos 90 minutos do filme de Sasha Waters Freyer, que já pode ser visto desde a semana passada nos Estados Unidos, esta história, assim como os seus lemas, estejam bem patentes.

© Garry Winogrand

Conhecer os princípios de Garry Winogrand para a fotografia e simultaneamente ver as imagens que nos deixou foi o cocktail mágico que me fez abandonar a ideia de me prender a um estilo. Posto de lado o casulo que me “atou” nos primeiros “demasiados” anos de fotografia – em que me dizia fotógrafo de paisagem –, e sentindo a liberdade de pensar que efetivamente tudo é fotografável, não só sou extremamente feliz a querer contar histórias com uma câmara fotográfica que possam ficar como testemunho e legado da minha responsabilidade, como passei a admirar principalmente os fotógrafos que o fazem. E agradeço esta minha liberdade e abertura de mente a Garry Winogrand, que desempenha um papel preponderante na minha vontade de fotografar. Embora eu tenha de reconhecer que a época da sociedade americana que Garry Winogrand mais fotografou – os anos 50 e 60 – terá sido uma espécie de “papinha já feita” para pôr bons fotógrafos no mundo, a verdade é que poucos a conseguiram retratar como ele o fez. O seu prodigioso olhar será eventualmente comparável ao de Cartier-Bresson ou Robert Capa, embora cada um ao seu estilo.

© Garry Winogrand

O filme “Garry Winogrand: All Things Are Photographable” é o documentário que eu gostava de ter feito, é a homenagem que refletiria o meu agradecimento. Espero que a produção de Sasha Waters Freyer honre o que tem de honrar.

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