Há coisa de dois meses a Fuji anunciou aquele que poderá ser o primeiro grande passo para a revolução do equipamento fotográfico digital. É um facto que o movimento do mirrorless – câmaras fotográficas sem o mecanismo de espelho – ainda não me encheu as medidas. Chamem-me tradicionalista ou conservador, mas continuo a gostar de sentir na ponta dos dedos todo aquele festival de mecânica das “velhas” reflex com a orgânica de uma imagem num visor de vidro (quase) virgem da eletrónica. Vou dizer a coisa de outra maneira: uma câmara mirrorless é uma ideia que me alicia muito, mas ainda como conceito de câmara complementar, com os seus propósitos muito específicos. TALVEZ ATÉ AGORA…

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Dá pelo nome de FUJIFILM GFX 50S e é uma câmara digital de médio formato sem espelho (mirrorless) anunciada em setembro pela multinacional japonesa durante a Photokina 2016. É uma pedrada no charco do mercado? Não tenho a mínima dúvida disso. Vai chegar nos primeiros meses do próximo ano ao mercado, tem um sensor de 43,8 x 32,9 mm, pesa e mede pouco mais do que uma DSLR de gama média e vem de um fabricante que tem semeado no mercado uma qualidade sem precedentes com equipamentos que superaram todas as mais elevadas expectativas em termos de desempenho.

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A nova câmara da Fuji é pouco maior que uma DSLR, tem uma flange distance de apenas 26,7 milímetros por ser uma mirrorless e é o que já se pode chamar de médio formato por ter um sensor de 43,8×32,9 mm. Ao que se diz, vai ter um preço abaixo dos 10 mil euros e pode ser a primeira bandeira de democratização do médio formato.

Mas porque pode ser esta uma revolução das grandes? Porque num mercado onde o médio formato digital de referência tem etiquetas de preço acima dos 50 mil euros, tudo indica que esta nova câmara poderá ser sua por menos de 10 mil euros já com uma lente de 63mm f/2 (informação não oficial e, portanto, sujeita a confirmação), tudo isto embrulhado na qualidade Fuji a que a marca nos habituou nos últimos anos. Ou seja, face aos valores correntes de mercado de uma DSLR topo de gama, o investimento vai cativar garantidamente muitos profissionais que têm agora aqui uma porta aberta para darem o salto para sensores maiores e que até aqui apenas podiam salivar com marcas cujos preços são só praticáveis com um bom plano de rentabilização do equipamento. Por isso, sim, acho que 2017 pode ser o ano do primeiro grande passo da democratização do médio formato, powered by Fuji, e que obrigará certamente as restantes marcas a gravitar em torno de um novo paradigma de equipamento/preço.

gfx_sideleft_63mm_evfVamos a factos. Ainda carecendo de dados que possam garantir alguma semelhança, a Phase One, por exemplo, tem neste momento no mercado uma Mamiya Leaf XF CREDO com um sensor de 44×33 de 50 milhões de pixéis (com espelho) que é o que me parece mais próximo… e que custa 22.130 euros. Os 50 milhões de pixéis seguintes nas lojas vêm das Canon 5DS pelos quais se tem de dar quase quatro mil euros (só o corpo da câmara, sem lentes), mas num sensor 36×24, e das futuras Sony que se avizinham, mas também do segmento 35mm. Ora, a Fuji não só ataca com a gama 50 milhões de pixéis num sensor onde têm espaço para respirar, como o faz com um pedaço de equipamento pequeno e leve, numa estratégia de quem sabe que o médio formato não tem de ser coisa quase exclusivamente de estúdio por causa da logística de transporte de que habitualmente necessita e a um preço que dispensa comentários elaborados.

gfx_frontNo entanto, sem querer arrefecer bruscamente as expectativas, um equipamento como este carece de testes, os quais surgirão mais tarde. Será a qualidade comparável a um dos equipamentos que estão no mercado e que custam mais do dobro? O que sacrifica a Fuji (para além do mecanismo de espelho) para conseguir uma câmara tão barata (em termos relativos, claro)? Há uma dúvida que lanço para já… Um dos grandes trunfos da Fuji nas suas mirrorless que tanto sucesso têm feito é o modelo de desdobragem nos sensores X-Trans. No entanto, e para minha surpresa, o sensor da FUJIFILM GFX 50S é mais tradicional, com um padrão Bayer, que eu achava que a marca já tinha abandonado. Porquê? Só a Fuji poderá explicar, e estou ansioso para ouvir a justificação. Mas mais ansioso estou ainda por pôr as mãos em cima do “brinquedo”. Posto isto, acho que 2017 vai ser ano de boa colheita.

 

3 Responses

  1. Manuel Vilar de Macedo

    Olá Ricardo.
    Se me permite duas breves notas, que não são reparos, mas complementos: o primeiro é que esta Fuji tem uma concorrente pelo mesmo preço na Pentax 645z, pelo que não está exactamente sozinha no médio formato digital «acessível» (e em breve terá a companhia da Hasselblad X1D). A segunda é quanto ao uso de um sensor Bayer. Parece-me que a Fuji faz bem, porque as imagens Raw dos sensores X-Trans são um pesadelo para quem usa edição de imagem (especialmente o Lightroom). Normalmente, os utilizadores das X-T e X100 fotografam em JPEG usando os filtros que simulam os slides Provia e Velvia. Penso que seria ridículo gastar 10 000 euros para fotografar JPEGs em médio formato…
    Cumprimentos.

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    • rsalvo

      Olá Manuel.
      É um gosto enorme ter aqui o seu contributo. Tem toda a razão sobre os exemplos que apresenta em termos de relação equipamento/preço.

      No entanto, acho, ainda assim, que a Fuji dá aqui um bom passo (em relação a uma médio formato sem espelho e a toda uma gama de lentes novas para este equipamento sobre a qual, efetivamente, não falo no texto) e, como sabe, candeia que vai à frente… No entanto, sobre a Pentax 645z, é uma reflex, o que a obriga a ser grande e pesada e a ter uma distância de flange muito grande, limitando por isso os utilizadores às lentes da marca (embora a escolha existente já seja, por sinal, muito boa por causa da transversalidade de fabricantes para a Pentax e da Pentax para outros fabricantes). No caso da Hasselblad, não é conhecida ainda toda a gama de lentes compatíveis que o fabricante vai lançar. A Fuji anunciou em simultâneo com esta câmara, na Photokina deste ano, uma prime de 63mm f/2.8, um zoom 32-64mm f/4, uma 120mm Macro f/4, uma 110mm f/2, uma 23mm f/4 e uma 45mm f/2.8. E como a distância de flange é curtíssima, por ser uma mirrorless, vou acreditar que com os adaptadores certos poderá usar muitas mais lentes do mercado. Onde efetivamente não partilho da sua opinião é no que diz respeito à desdobragem de cores do X-Trans da Fuji, que considero bem melhor do que o padrão Bayer.

      Sobre os preços… A Fuji diz que vai pedir menos de dez mil euros pela câmara já com a 63mm, mas cá estaremos para ver se é verdade. Tanto a Pentax como a Hasselblad estão mais próximas dos 15 mil euros (embora também tenham anunciado que iriam pedir menos de dez mil).

      Abraço.

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