Hoje, precisamente à hora em que este meu texto cai neste site (9h21 em Portugal), começa o Outono. E assim abre uma das mais estimulantes épocas para quem é entusiasta da fotografia de paisagem ou de natureza. A luz é diferente, a vegetação reveste-se de novas cores e formatos, as condições meteorológicas ganham a mais interessante dinâmica e, portanto, está na hora de planear e ir para o terreno. Partilho convosco a forma como costumo olhar para os próximos meses.

Outubro

Partindo do princípio de que vamos fotografar em Portugal, este é um mês em que salta já à vista a principal diferença face aos últimos meses. O sol é baixo, as luzes são mais suaves ao longo do dia e mesmo na hora mais dura (ao meio dia solar), a subtileza das sombras e dos tons dá pano para mangas. Desengane-se quem achar que apenas nas horas douradas do nascer e pôr do sol se consegue bons resultados – aliás, seja em que altura for do ano, pobre de criatividade aquele que achar que não há nada para fotografar ao meio dia. No início do mês, o sol não sobe mais do que 48º no céu (o ângulo de altitude em relação à linha do horizonte) e a cada dia que passa sobe menos, até que não passará dos 37º de altitude no último dia do mês.

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© Ricardo Salvo

O que costumo fazer durante este período recai sobre a fotografia mais urbana em plena luz do dia. Fotografar na cidade, tendencialmente a preto e branco, dá-me habitualmente resultados muito interessantes (sobretudo para mim, que gosto mais de deixar os contrastes muito acentuados para o Verão), com a luminosidade a criar muito volume nos objetos e nas pessoas. No caso de chuva, todo aquele jogo de defesa das pessoas que andam na rua confere-lhes expressões singulares às quais vale a pena estar bastante atento.

No Outono a luz é diferente, a vegetação reveste-se de novas cores e formatos, as condições meteorológicas ganham a mais interessante dinâmica e, portanto, está na hora de planear e ir para o terreno.

 

Novembro

Em Novembro, três realidades se juntam. O sol é ainda mais baixo, anoitece drasticamente mais cedo com a mudança de hora do final de Outubro e grande parte da vegetação, independentemente de ser de folha perene ou caduca, assume tons entre o dourado e o castanho. Esta conjugação cria cores fascinantes que jogam bem tanto com céu como com cenários de água e até mesmo com a restante vegetação que se mantém verde. Nesta altura do ano, a minha aposta vai sobretudo para o nascer e pôr do Sol, aproveitando a chamada “hora dourada” – o período de tempo em que o sol está entre a linha do horizonte e os 10º de altitude, num constante mudar de cenário durante sensivelmente uma hora.

© Ricardo Salvo

© Ricardo Salvo

A instabilidade do tempo, numa incerteza constante sobre se chove ou não na hora seguinte, tende também a criar efeitos bastante dramáticos no céu, que às primeiras e últimas horas do dia pode proporcionar as cores mais inesperadas. Esta é a época do ano em que raramente há dois dias iguais para o mesmo cenário e para a mesma hora, pelo que é necessário visitar e revisitar os locais eleitos para fotografar até se conseguir os resultados mais desejados.

No que diz respeito ao planeamento, há que ter em conta que o dia acaba bastante cedo, caindo a noite pouco depois das 17h. Já sobre os locais, procuro as zonas mais florestadas, de preferência com cursos de água. Aqui, as serras a Norte – Gardunha e Estrela – são pontos de referência.

Dezembro

Com a aproximação do Natal, chegamo-nos perto do Inverno, que trará novos desafios. Para dezembro, costumo render-me às árvores, despidas de folhas e pondo a nu as suas formas mais desafiantes para o fotógrafo. Mas dezembro é também o mês em que se acentua um dos efeitos da natureza que mais aprecio, o da neblina matinal que tanto em paisagem rural como urbana cria efeitos muito apetecíveis para uma boa imagem.

© Ricardo Salvo

© Ricardo Salvo

Predominando quase de certeza a chuva, dificilmente se torna relevante o pôr ou o nascer do sol. Mas a luminosidade dos dias é absolutamente apaixonante, com o sol a atingir as altitudes menos altas do ano.

Não esquecer

Todas as cores e luminosidades dos próximos três meses sempre me fascinaram desde que fotografo. Estilos, há muitos. Mas se serve de recomendação, elenco aqui os pontos de que nunca me esqueço, para além, obviamente, da câmara e do tripé.

  • Filtros de densidade neutra. Ando sempre com eles durante todo o ano, mas nos próximos três meses atingem o pico da sua utilização, sobretudo os graduais, permitindo-me a maior gama de dinâmicos entre a luminosidade dos céus e do cenário.

  • Polarizador. Durante o Outono, os raios solares tendem a incidir durante mais tempo do dia em ângulos que proporcionam a polarização da luz tanto em água como em vegetação. Aproveite-se essa dádiva com um filtro polarizador, que permite vincar na imagem a separação entre essa luz polarizada e por polarizar.

  • Expor à direita. Na indecisão de medir a luz para os tons altos ou baixos, medir para os baixos. Corre-se o risco de a imagem ficar sobrexposta e queimar as chamadas luzes altas (highlights)? É um facto. Mas tendo em conta que não se exagerou nesta regra e que se fotografou no formato RAW da câmara, os detalhes poderão ser recuperados no processo de edição. A regra de algibeira é a de olhar para o histograma da imagem após a sua captura e ver se o gráfico tende para o lado direito. É que fazer o contrário, isto é, medir para os tons altos, vai esmagar na escuridão os baixos tons, cuja recuperação em posterior edição vai resultar em “ruído” na imagem.

  • O HDR não é um papão. É da técnica de HDR que resulta aquilo a que chamo de “fotografia palhaço”. Ou seja, imagens com cores tão berrantes e artificiais que mais parecem uma caricatura. Sem discutir gostos, essas fotografias para mim não passam de puro lixo. Mas quando usado com sobriedade, o HDR pode premiar com resultados fascinantes. Experimente. Três imagens seguidas separadas com apenas meio stop entre si e sem exageros em pós produção.

  • Luvas e um termo com café ou chá quente. Creio que este ponto dispensa explicações. Mas garanto que o impacto na qualidade fotográfica faz-se notar, sobretudo quando se vai fotografar ao nascer do sol. As luvas têm de ser daquelas próprias para fotografar (à venda em boas casas da especialidade), ou seja, com ponta de silicone no indicador e polegar para manter o tacto com os comandos da câmara.

  • Baterias carregadas. O clima no Outono é frio. Não tanto como no Inverno, mas já o suficiente para ter impacto na capacidade das baterias da câmera (sim, em baixas temperaturas, as baterias descarregam mais rapidamente). Por isso convém ir prevenido. Recomenda-se mais do que uma bateria e a aposta na carga máxima antes de sair de casa.

  • Música. Esta é uma técnica que uso com bastante frequência quando fotografo sozinho. Pode não resultar com todos, mas tenho para mim que a música nos comanda o espírito e a sensibilidade ao mundo que nos rodeia. Uma boa sequência de notas musicais bem escolhidas, um leitor de MP3 e uns bons auscultadores fazem magia enquanto se fotografa.

Feliz Outono para todos.

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