Há três anos, a Sony começou a pensar no assunto. Esta semana, a Microsoft deu um dos maiores empurrões de sempre ao tema. Estou a falar de sensores curvos para as máquinas fotográficas, que representam um dos mais promissores saltos na qualidade de imagem fotográfica moderna, mas, simultaneamente, um dos maiores inimigos dos fabricantes de lentes e um desgosto para os fotógrafos que lá investiram euros aos milhares em ótica. Ainda assim, tenho cá para mim que o tema ainda vai dar muitas voltas até se transformar num assunto economicamente sensível. Porém, se a ideia vier a ser bem sucedida, estou a falar-vos da possibilidade de pequenas câmaras baratas poderem superar em qualidade de imagem as dispendiosas DSLR que hoje existem no mercado.

Começemos pela ideia da Sony em 2014.

As lentes produzem pelas leis “quase” incontornáveis da física o efeito de Petzval, também conhecido por “curvatura de campo”. Traduzindo, pelas especificidades físicas da refração da luz que não interessam para aqui explicar (embora não seja um tema complicado), uma lente não corrigida nunca conseguiria manter a mesma distância focal ao centro e nos cantos.

As lentes, por serem curvas, não matém a mesma distância focal em todos os pontos. Nos cantos, os raios de luz têm de fazer uma viagem maior até ao sensor. A não ser que este seja curvo.

Desta forma a lente tem uma distância focal diferente nos cantos (a curvatura da lente faz com que os raios de luz tenham de fazer uma viagem maior até ao sensor/película fora do eixo central), o que significa que só ficaria garantida a nitidez de uma lente focada para um raio de luz que passe mesmo no ponto mais ao centro. Este efeito obrigou a golpes de engenharia ótica que nos trouxeram à qualidade que temos hoje nas lentes, em que, graças a uma complexidade de elementos óticos, o efeito de Petzval quase desaparece. Ainda assim, nunca se conseguiu chegar à perfeição e até mesmo a lente mais cara do mercado ainda produz aberrações nos cantos da imagem na sua máxima abertura, embora, em alguns casos, quase imperceptíveis.

Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé. Então as lentes curvam os raios de luz e provocam aberrações num sensor plano? Então curve-se o sensor para corrigir o problema…

Foi então que os engenheiros da marca japonesa (e que já nos têm vido a habituar às maiores inovações dos tempos modernos no que diz respeito a sensores para câmaras) se lembraram de que quando Maomé não vai à montanha… um sensor curvado evitaria a necessidade de elementos óticos nas lentes que, emboram lá estejam para conferir qualidade, cobram na fatura da luminosidade, redução de transparência de todo o conjunto e do preço. Com esta ideia (um ovo de Colombo, diga-se), a Sony prevê a possibilidade de se captar uma imagem sem qualquer aberração com recurso a lentes simples e de fabrico barato. Só tem havido um problema: os primeiros testes confirmam já o sucesso da ideia, mas não se conseguiu ainda fazer a curvatura com a uniformidade suficiente para que tudo bata certo.

Agora a Microsoft…

Mas foi isso que a Microsoft, aparentemente, terá conseguido fazer esta semana. Com uma técnica específica, a marca norte-americana terá conseguido controlar na perfeição o grau de curvatura do sensor de forma a que não haja o desvio de um simples píxel.

Esta semana, a Microsoft fez saber que descobriu uma técnica para conseguir curvar um sensor de uma forma mais uniforme, conferindo-lhe a quase perfeição no combate às aberrações das lentes.

E se agora ambas as marcas unirem esforços, podemos estar perante uma gigantesca revolução no campo das máquinas fotográficas modernas, obrigando a repensar muitas variantes do mercado.

Porque sim?

Se a ideia vingar, uma simples lente de um telemóvel bastará para a captação de uma imagem irrepreensível. Com menos elementos óticos, uma objetiva consegue deixar passar muito mais luz (por ser mais transparente e simultameamente não necessitar de tanta profundidade de vidro). Por outro lado, construir uma grande angular será também significativamente mais fácil (são, presentemente, as lentes que mais exigem da engenharia ótica para que não produzam aberrações, o que explica o tão elevado preço). Posto isto, uma simples câmara de vigilância terá uma captação de imagem sem precedentes, ou a câmara de um radar de velocidade.

Porque, eh pá, mas…?

Porque para não implementar uma revolução tal que viraria o mercado do avesso, os fabricantes só vão, numa fase inicial, implementar os sensores curvos em câmaras de pequena dimensão (como telemóveis e câmaras de ação). É que as lentes que hoje temos deformariam por completo a imagem num sensor curvo, o que obrigaria a encostá-las para peças de museu. Uma coisa é trocar de câmara porque a tecnologia é nova (e os fotógrafos já estão habituados a fazê-lo). Outra é investir de novo em tudo o que é lente. Ainda mais um ponto, não seria fácil produzir lentes de focal longa para um sensor curvo, pelo que a solução, para já, para distancias focais maiores teria de passar por zoom digital ou por crops centrais da imagem.

Pela parte que me toca, gosto muito da personalidade mais orgânica que ainda se vai conseguindo com pequenos truques que têm de ser cada vez mais ousados à medida que a tecnologia evolui. Primeiro, com as máquinas digitais, perdeu-se boa parte da orgânica da captação de luz e cor (o sensor digital reage linearmente à luz enquanto que a química dos haletos de prata parece ter vida e tomar decisões próprias consoante a qualidade da luz). Através da fotografia em RAW, impedindo que a câmara trate da luz como se fosse carne para canhão, este problema foi contornado. Depois, com o fabrico de lentes próprias para o mundo digital (sm, os raios de luz são refratados de maneira diferente das lentes antigas), perdia-se outro toque, o que também se consegue contornar com o recurso a lentes mais conservadoras.

E agora (talvez os meus filhos, netos e bisnetos já sejam de uma geração que não compreenderá isto) querem tirar-me as aberrações das lentes. Deixem-nas estar. Eu gosto.

 

2 Responses

  1. Sergio Miranda

    Belo artigo, mas cuidado, está a usar a palavra “lente” em vez de “objectiva” na quase maioria das vezes 🙂

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    • rsalvo

      Caro Sérgio, muito obrigado pelo seu comentário. Compreendo a sua observação, que agradeço e, embora tecnicamente seja correto que se deve distinguir uma lente de uma objetiva, a terminologia “lente” aplicada a todo o conjunto ótico acaba por ser aceitável em muitos meios. Mas aceito que neste caso não fui pelo tecnicamente mais correto, pelo que o seu comentário é bastante pertinente. Note-se, no entanto, que em certos parágrafos refiro-me mesmo à lente per si e não a todo o conjunto de uma objetiva. Muito obrigado e cumprimentos.

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