É agosto. Os céus vão estando limpos por cá e, para quem gosta de fotografar o céu noturno, há dois pontos fortes que todos os anos se conjugam este mês. Em primeiro lugar, a parte central da via láctea exibe-se vaidosamente a horas próprias de se estar acordado, sendo uma companhia constante das noites de Verão do hemisfério norte (onde não houver poluição luminosa, é claro). Por outro lado, durante boa parte de agosto, a Terra “toca” na poeira que é deixada pelo cometa Swift-Tuttle, dando origem, ciclicamente, sempre nesta altura do ano, a uma das mais fortes “chuvas de estrelas”, as Perseidas, também conhecidas como “Lágrimas de São Lourenço”. Porém, este ano, dizem os astrónomos e eu acredito, as Perseidas serão mais intensas do que o habitual e a expectável Taxa Horária Zenital – traduzindo, o número expectável de meteoros (ou estrelas cadentes) por hora – poderá ser o dobro da habitual. Ou seja, não seria de pasmar se este ano, olhando para os céus portugueses na altura certa, pudéssemos apreciar até 200 estrelas cadentes por hora. É muito desejo para pedir, eu sei, mas não tem de pedir um por cada estrela.

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Posto isto, há que tirar o equipamento da mochila, planear e fotografar. Esta é uma oportunidade que não deve ser desprezada. Neste artigo, vou tentar dar uma ajuda, com algumas dicas para aproveitar convenientemente o momento e tentando recolher boas imagens.

Comecemos então pelo planeamento. Para começar, marque na sua agenda a noite de 11 para 12 de agosto, ou seja, a madrugada de quinta para sexta feira já desta semana. Porquê? Porque será a noite mais intensa das Perseidas. Ainda que estejamos a atravessar a poeira do Swift-Tuttle desde finais de julho e até quase finais de agosto, a madrugada de dia 12 é aquela em que se prevê que uma maior quantidade de meteoros entre na atmosfera terrestre, incendiando-se e consumindo-se com a fricção e dando origem àquilo a que vulgarmente chamamos de “estrelas cadentes”. Para esta data, no entanto, há que ter em atenção que a Lua estará entre o quarto crescente e a fase cheia (acima de 60%), o que dificulta a obtenção de um céu verdadeiramente escuro, mas a boa notícia é a de que se irá embora antes da 1h30 da manhã (hora portuguesa continental), deixando todo o palco para o prometido espetáculo.

Depois do quando, vamos ao onde. Esta parte, infelizmente, vai-se tornando cada vez mais difícil à medida que as populações vão crescendo e as cidades vão evoluindo. Há que procurar um sítio com a mais baixa poluição luminosa possível para tentar obter um céu verdadeiramente escuro e estrelado. O meu conselho é o de procurar uma zona mais rural – o que por vezes até se torna mais fácil em época de férias –, mais afastada das grandes cidades e que seja, simultaneamente, um sítio seguro onde se possa estar confortável e descontraído e com condições para se montar o tripé e a câmara. Quer planear mais à séria? Já ouviu falar da Escala de Bortle, que mede a poluição luminosa? Consulte este site: http://darksitefinder.com/map/. Um conselho que dou sempre é o de fazer um primeiro reconhecimento do local ainda de dia para que quando lá voltar à noite possa estar mais familiarizado e, por isso, mais confiante.

Para este tipo de fotografia recomenda-se uma lente grande angular bastante luminosa.

Para este tipo de fotografia recomenda-se uma lente grande angular bastante luminosa.

Vamos agora à parte mais técnica. Que equipamento levar consigo? Bom, aqui muita coisa pode variar, de exigência para exigência. Mas o que recomendo é uma câmara que permita um controlo inteiramente manual, com um bom sensor, porque vai precisar de sensibilidades altas que permitam uma boa exposição sem fazer ruído digital em excesso (preferencialmente uma DSLR); um tripé estável; um cabo disparador, de preferência com intervalómetro se a sua câmara não dispuser desta função; uma lente com baixa distância focal (grande angular) e que seja bastante luminosa (f/2.8, pelo menos); uma lanterna (de luz encarnada, para não desadaptar a sua visão da escuridão quando a utilizar); agasalhos e farnel (itens que, acredito, dispensam aqui de explicação).

Mas vamos por pontos. Não lhe vou dizer que o equipamento não terá de ser de grande qualidade. Porque, efetivamente, vamos fazer exposições de longa duração e com um ISO alto, o que numa câmara mais antiga ou de qualidade mais questionável vai produzir muito “grão” na imagem (o que, na película, pelo seu carácter orgânico, até pode ser bonito, mas que numa máquina digital não é mais do que ruído eletrónico feio).

A exposição

Esqueça o fotómetro da máquina, porque não vai haver qualquer automatismo que lhe valha. Dada a escuridão do céu, o obturador vai estar aberto durante vários segundos para conseguir que as ínfimas estrelas fiquem gravadas no sensor da máquina e, para isso, o mais comum é ter de escolher o modo “Manual” ou “M” da sua máquina para que possa escolher livremente a velocidade de exposição. Depois é aplicar a regra dos 500, ou seja, velocidade máxima de exposição em segundos = 500/(distância focal x “crop factor”). Não se assuste, aqui vai um exemplo: imagine que vai usar uma lente de 24mm de distância focal. Se a sua câmara é uma “full frame”, ou seja, se tem um sensor do tamanho do antigo fotograma da película tradicional (24x36mm), não há crop factor, o que significa que só tem de dividir 500 por 24 (dá 20,83, portanto, uma exposição de 20 segundos). Se a sua câmara for de sensor mais pequeno, há um factor que diz quanto mais pequeno é em relação ao full frame. Por norma, uma Canon com sensor APS-C tem um sensor com um factor 1,6. Numa Nikon, o factor é geralmente de 1,5 e numa micro 4/3 costuma ser de 2.

Esqueça os automatismos. Comece por colocar a sua câmara no modo "Manual".

Esqueça os automatismos. Comece por colocar a sua câmara no modo “Manual”.

Assim temos, para cálculo da exposição sob um exemplo de uma lente de 24mm:

Sensor “full frame”, independentemente do fabricante: 500/24= aprox. 20 segundos

Sensor Canon APS-C: 500/(24×1,6) = 500/38,4 = aprox. 13 segundos

Sensor Nikon APS-C: 500/(24×1,5) = 500/36 = aprox. 14 segundos

Outros fabricantes e modelos: consulte o factor de crop e siga a mesma metodologia de cálculo.

Mas porquê usar esta velocidade máxima? Porque a terra, na sua rotação, dá uma aparência de constante movimento das estrelas (tal como com o sol ou a lua). E uma exposição superior à indicada irá provocar um efeito de arrasto, em que a estrela, em vez de ficar registada como um ponto, assemelhar-se-á mais com um traço. Embora queiramos que isso aconteça com os meteoros, que ficam registados como um grande risco no céu noturno, não vamos querer que isso aconteça com os restantes astros.

A focagem

Agora vamos à focagem. Mais uma vez, esqueça os automatismos. Aqui, a primeira coisa a fazer é mesmo desliga-los. Desligue a focagem automática e, caso a sua câmara/lente o tenha, também o estabilizador de imagem. Nota importante: qualquer um destes mecanismos vai estragar a sua fotografia.

Algumas lentes indicam onde está o verdadeiro ponto de focagem para o infinito.

Algumas lentes indicam onde está o verdadeiro ponto de focagem para o infinito.

E agora se pensa que focar para o infinito, rodando a sua lente até ao fim, até ao símbolo de infinito que lá está gravado, é a solução, enganou-se. Vai ter de descobrir o verdadeiro ponto de focagem para o infinito da sua lente e isso, caso a sua objetiva não tenha o indicador na escala numérica que tem impressa, pode ser feito de duas maneiras:

  • Procure um ponto luminoso muito distante, com a intensidade suficiente para o conseguir focar. Uma luz de iluminação pública ao longe, por exemplo. Foque para esse ponto e não toque mais no anel de focagem da lente. Este é o ponto no qual também as estrelas estarão focadas. Se for preciso, faça esta focagem de dia e faça uma marca na lente para que possa voltar a esse ponto de focagem mais tarde (e em situações futuras).

  • Se não focou previamente a sua lente para o ponto anterior, use o “live view” da sua máquina no modo de maior ampliação que conseguir e tente, a partir daí, focar uma estrela até que esteja irrepreensivelmente nítida e cristalina. Quando o tiver conseguido, não toque mais no anel de focagem até terminar a sua sessão de fotografia.

  • Caso não tenha possibilidade de usar nenhuma das metodologias anteriores… Lamento, mas só com tentativa-e-erro. Fotografe, veja como ficou, corrija e repita. Requer paciência.

 

Abertura, sensibilidade e cor

Para a abertura, a minha recomendação é simples: escolha a maior que tiver (o número f/ mais baixo da escala). Embora seja possível fotografar estrelas numa noite escura com f/4 e f/5.6, usar um f/2.8 ou f/1.8 é mesmo o mais recomendável. Porque quanto maior a abertura que conseguir, menos ISO (sensibilidade do sensor à luz) terá de usar, minimizando assim o ruído eletrónico que o seu sensor irá produzir. Ainda assim, se o céu estiver bem escuro (como se deseja), não se livra de usar um ISO de pelo menos 1600 se quiser ficar com um registo que se veja. Posso dizer-lhe que mesmo com aberturas de f/2.8, costumo levar a minha câmara ao ISO 3200 quando não há poluição luminosa no horizonte, se quiser que se veja bem a via láctea, mesmo sabendo que tal irá requerer algum tratamento antirruído em pós-produção. Atenção, no entanto, que quanto maior for o ISO, também mais vincada ficará a poluição luminosa que existir no horizonte, o que geralmente fica registado como um “chapão” de luz cor de laranja a contaminar o resto da imagem. Faça experiências e corrija a regulação da sua máquina de acordo com os resultados que for vendo.

Por último, a cor. Mais uma vez, vamos desligar automatismos, desta vez no que diz respeito à regulação do balanço de brancos da câmara. A iluminação pública moderna tende a ser cor de laranja e, muitas vezes, mesmo que não a vejamos a olho nu no horizonte, a máquina com a sua alta sensibilidade consegue registá-la na imagem. Aliás, qualquer vestígio de nuvem no céu tenderá a ganhar as cores laranja refletidas da povoação mais próxima. A forma de contrariar o mais possível este efeito é regular o balanço de brancos da máquina como se fosse fotografar com luz de tungsténio, o que confere uma tonalidade mais azul à imagem. Isto é essencial, sobretudo, quando se fotografa diretamente no formato jpeg. Caso a sua câmara permita fotografar no formato RAW, aproveite, porque assim terá mais flexibilidade para correções em pós produção.

 

Apontar e disparar

Máquina focada e exposição máxima calculada, chega a hora da verdade. Como estamos a falar de expor durante vários segundos, creio que nem é necessário explicar porque é que só com um tripé é possível captar as imagens que vamos captar. É que aqui até a trepidação do dedo a pressionar o botão disparador conta. Daí que eu tenha recomendado o cabo disparador, para que possa acionar o obturador da câmara sem tocar em qualquer botão da máquina. Mas, primeiro, há que enquadrar.

Aspeto do céu em Portugal às 1h30 de dia 12 de agosto e localização da consteçação de Perseus quando virado para nordeste.

Aspeto do céu em Portugal às 1h30 de dia 12 de agosto e localização da consteçação de Perseus quando virado para nordeste.

Estas conhecidas “estrelas cadentes” são denominadas de “Perseidas” porque o seu ponto radiante (de onde geralmente partem) está na constelação de Perseu. Ora, saber onde está a constelação pode envolver algum conhecimento básico de astronomia ou… mais simples ainda… usar uma aplicação móvel de realidade aumentada que lhe permita saber com o seu telemóvel ou tablet para onde olhar. Há aplicações para este efeito aos pontapés nas lojas de aplicações móveis, tanto pagas como gratuitas. É escolher e experimentar. No entanto, ainda que os meteoros possam surgir a partir da constelação de Perseu, poderão ser vistos em qualquer parte do céu. E mais… se está a usar uma grande angular, como lhe recomendei, qualquer ponto virado a Norte/Nordeste irá garantir-lhe que a constelação de Perseu está no campo de visão da sua lente.

Pescar à rede

Mas, e agora, qual o momento de disparar? O meteoro não avisa que vai passar, portanto…

A técnica é relativamente simples. Se a sua câmara ou cabo disparador dispuserem de um intervalómetro (mecanismo que permite disparos sequenciais da sua câmara em intervalos regulares), use-o. Se não tiver, coloque a sua máquina no modo de disparo contínuo e use o cabo disparador para bloquear o acionamento do disparo para que a câmara dispare, dispare e dispare sem parar. Ou, se tiver paciência, vá carregando repetidamente no disparador.

Comando disparador que lhe permite controlar várias funções da sua câmara à distância, minimizando a vibração em longas exposições.

Comando disparador que lhe permite controlar várias funções da sua câmara à distância, minimizando a vibração em longas exposições.

De todas as imagens que obtiver, várias terão certamente a passagem de “estrelas cadentes” registada. Pode ainda, caso seja conhecedor da técnica para o fazer, preparar um bom time-lapse, no qual usará todas as imagens em sequência que fez para produzir um pequeno vídeo em movimento acelerado (mas isso já são andanças fora do âmbito deste artigo).

Criatividade

De uma forma básica, a técnica é a descrita nos parágrafos anteriores. O resto, é consigo. A criatividade, o enquadramento, o que escolhe para primeiro plano nas suas imagens, isso é tudo o que faz de si um fotógrafo diferente dos outros. Procure soluções e ângulos. Use o que tem à sua volta no local para compor uma boa imagem. Agora está nas suas mãos. Uma boa técnica, caso disponha de tempo para isso, é ir ao local escolhido uma ou duas noites antes testar tudo e fazer algumas fotografias de teste para ver em casa. Não se esqueça que o que vê no momento no visor da sua câmara é apenas uma ideia que pode não estar refletida na imagem final que vê depois confortavelmente no monitor do seu computador.

Divirta-se. Boas fotografias e, se quiser, partilhe.

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