ALERTA: AS CARACTERÍSTICAS DA LUA VERMELHA DESCRITAS NESTE ARTIGO APENAS SÃO VÁLIDAS NESTA DATA (27 DE SETEMBRO DE 2015).

Onde está a vossa lente com a maior distância focal? Durante a noite de hoje para amanhã vão precisar dela para fotografar a maior “blood moon” desde 1982 e que só se repetirá em 2033. Não só a Lua, por estar no perigeu – a “apenas” 356,8 mil km da Terra –, estará 14% maior e 30% mais brilhante, como passará por um eclipse total que irá conferir-lhe um tom castanho avermelhado imperdível – do qual resulta a expressão “blood moon”.

Na verdade, o que se passa é que vão juntar-se três fenómenos cuja conjugação apenas se repete em intervalos temporais tão grandes que apenas temos duas ou três oportunidades na vida de os testemunhar. Temos 1) Lua cheia quando 2) este fiel satélite da Terra está no ponto mais próximo de nós (no perigeu) e 3) passará integralmente no cone de sombra da Terra em relação à luz solar, ocorrendo um eclipse lunar total.  Desta vez é completamente visível em Portugal durante a noite e, uma vez que estão previstas condições climatéricas muito favoráveis por quase todo o país, esta pode mesmo ser uma oportunidade única na vida de fotografar tal fenómeno.

Honestamente, nunca fotografei um eclipse lunar e conto estrear-me hoje. Por isso partilho convosco os meus planos técnicos que espero serem os mais sensatos para o efeito.

Em primeiro lugar, vou procurar um ponto com vista larga de céu virado para sudoeste (onde estará a Lua no auge do eclipse). Como estou em Lisboa, sei que a Lua entrará em eclipse total às 3h11 (ver horários em baixo) no azimute aproximado de 219º e a uma altitude aproximada de 46º em relação à linha do horizonte. Como não tenho acesso a um telescópio, o que seria o ideal, irei levar comigo a lente de maior focal que tenho, uma 300mm. A minha ideia é fazer uma montagem com quatro ou cinco imagens que mostrem um resumo da sequência do eclipse (lua cheia, lua em eclipse parcial e lua em eclipse total) e, eventualmente, uma paisagem com a Lua em eclipse.

No entanto, sei à partida que a qualidade de imagem final andará em torno do sofrível, uma vez que uma objetiva de 300mm na minha câmara “full frame” fará com que a Lua ocupe em diâmetro apenas 7,6% da largura da imagem total (menos de 1% da área do sensor). O que significa que vou ter de fazer um significativo “crop” em edição posterior com a consequente perda de qualidade para que a Lua atinja um protagonismo que a dignifique.

Mais complicado será o cálculo da exposição. Aqui jogarei com tentativa e erro, mas sei que não vai ser fácil chegar ao ideal rapidamente. Fotografar uma Lua completamente iluminada é relativamente fácil. Fotografando-a diretamente, aplica-se a velha regra “Sunny 16”, ou seja, com ISO 100 e uma abertura de f/16, sei que uma velocidade de 1/125 fará, em princípio, uma exposição equilibrada. Mas quando a Lua estiver mergulhada no eclipse, estarei perante uma situação que para mim não tem precedentes, uma vez que para garantir que a deslocação da Lua no céu não faz arrastamento numa 300mm, não posso exceder uma exposição de 1,6’’ – a fórmula aproximada para calcular o tempo de exposição limite para que objetos celestes não produzam arrastamento é 500 / (distância focal x fator de crop). Eventualmente ISO 1600 com a máxima abertura da lente… logo se verá.

Agora as más notícias para quem tem de se apresentar cedo no local de trabalho

A hora a que a Lua nos irá proporcionar este espetáculo em Portugal continental não é nada convidativa para quem tem de se apresentar de manhã cedo no local de trabalho, ainda por cima logo numa segunda-feira. Aqui vai a micro-efeméride da noite:

1h11 – A Lua entra na penumbra. Começa a escurecer, passando de branca para mais acinzentada progressivamente até ao início do eclipse.

2h07 – Início do eclipse (eclipse parcial). A ausência de luz solar resultante da sombra da Terra começa a invadir progressivamente a superfície da Lua, num processo que demorará 64 minutos até que toda a Lua esteja oculta.

3h11 – A Lua mergulha completamente no cone de sombra mais profunda que a Terra produz em relação à luz solar, o qual atravessará durante 72 minutos. No entanto, os comprimentos de onda mais longos da luz (responsáveis pela cor vermelha) são refratados pela atmosfera terrestre, fazendo uma curvatura que produz uma ténue iluminação avermelhada na Lua, razão pela qual o satélite natural não fica completamente às escuras (sendo possível fotografá-lo).

3h47 – A Lua atinge a parte central do cone de sombra (ponto menos iluminado do eclipse).

4h23 – A Lua começa a sair do cone de sombra, voltando ao eclipse parcial.

5h27 – A Lua sai completamente do cone de sombra, ficando apenas na penumbra da Terra.

6h22 – A Lua sai da penumbra da Terra e termina todo o processo.

Sugestões artísticas para quem tenha o equipamento adequado

  • Perspetiva forçada. Quem não tem cão, caça com gato. Eu, com a minha 300mm, pouco mais posso fazer do que um “retrato” da Lua. Mas quem dispuser de focais bem mais longas ou, idealmente, um telescópio ao qual possa acoplar a câmara (estamos a falar de distâncias focais mínimas de 800mm), pode fazer imagens absolutamente fantásticas jogando com a paisagem, utilizando uma técnica conhecida por “Técnica da perspetiva forçada”. Sem entrar em grandes detalhes, esta técnica permite fazer com que a Lua ganhe grande dimensão na imagem por estar a ser fotografada com uma objetiva de grande distância focal, mas quando enquadrada com elementos da paisagem a grande distância na linha do horizonte irá fazer com que pareça desproporcionalmente grande em relação ao que é habitual. Infelizmente, não tenho equipamento para fazer a “brincadeira”.

  • Conjunto sequencial de imagens. Com distâncias focais mais pequenas, é possível fotografar a paisagem com toda a sequência de trânsito da Lua, passando pelo eclipse. Não vou detalhar aqui sobre a técnica, mas, resumidamente, trata-se de fazer um conjunto sequencial de disparos com intervalo certo e em pós produção fazer a justaposição das imagens de forma a registar-se numa só fotografia todo o percurso da Lua. Como se impõe, naturalmente, a imobilidade da câmara fotográfica e da perspetiva, há que não esquecer, para além do tripé, como é óbvio, do planeamento, utilizando uma aplicação ou um site adequado para o efeito (recomendo o The Photographer’s Ephemeris), através do qual se sabe previamente de forma exata onde nasce a Lua, onde está quando passa pelo eclipse e onde se põe em relação à paisagem.

E aqui estão partilhados os meus planos para as próximas 15 horas. E para os que meteram na cabeça que a “blood moon” de hoje representa o fim do mundo, de acordo com leituras proféticas questionáveis, recomendo que tenham juízo. Mas pelo sim, pelo não, há que levar uma caixa de primeiros socorros para a mordidela do lobisomem.

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