Estávamos todos à espera da Canon e da Nikon para tentar adivinhar a resposta à pergunta sobre se as câmaras fotográficas mirrorless vieram para substituir de vez as “velhas” DSLR. Finalmente os dois “dinossauros” responderam num território onde a Sony, Fuji, Olympus e Panasonic já dão cartas há algum tempo, e… quer-me parecer que a pergunta vai continuar sem resposta. A Canon EOS R acaba de bater no mercado, uma mirrorless com sensor full frame e as tecnicidades quase copiadas da EOS 5D IV (no fundo, é quase uma versão mirrorless deste modelo). A Nikon também já decidiu fazer a investida neste mercado no segmento tendencialmente profissional com a Z6 e a Z7, modelos onde optou por ser um pouco menos conservadora do que a Canon. Das opiniões que tenho recolhido, fico a perceber que a maioria dos fotógrafos afinal ainda não consegue dizer o que prefere e suspeito, portanto, que a grande viragem do mercado e a hipotética sentença de morte para as centenárias DSLR está apenas nas mãos dos fabricantes, caso queiram forçar que tal aconteça.

A nova câmara mirrorless da Canon pesa 660 gramas. Em tamanho, chega a ter mais quase dois centímetros de profundidade do que a EOS 5D IV.

O que trouxe então agora a Canon para o mercado com a EOS R? A meu ver apenas a mensagem de que está assustada com a perda de fiéis de longa data por causa das mirrorless de gama profissional da concorrência. A geração de câmaras sem espelho das restantes marcas tem despertado a curiosidade de fotógrafos que usavam Nikon ou Canon há anos e que têm optado pela mudança. No entanto, quer-me parecer que a marca nipónica não queria (nem estava preparada para) entrar ainda neste território. A EOS R é um aparelho mais pesado do que seria de esperar (660 gramas contra os 800 da 5D IV) e em volume não é assim tão mais pequena (em profundidade, é até maior que a 5D IV em quase dois centímetros). É verdade que custa menos 650 euros do que a sua prima DSLR (2650 euros), mas se fotografa muito ao longo do dia, prepare-se para investir a diferença de preço em baterias, porque cada carga não vai dar sequer para 400 disparos. Depois há pontos negativos (como só ter slot para um cartão de armazenamento e insistir na ausência do estabilizador de imagem no sensor) e positivos (como a rapidez do processador Digic 8 e a maior possibilidade de escolha de objetivas) que não vale a pena estar aqui a enumerar. Quero apenas com isto dizer que esta câmara não é, nem de perto nem de longe, uma pedrada no charco. Entre este modelo e a DSLR que lhe é mais diretamente comparável não existe qualquer revolução ou ousadia merecedora de aplauso.

As câmaras mirrorless vieram para substituir de vez as “velhas” DSLR? Só se os fabricantes a isso nos obrigarem. Os fotógrafos não parecem ainda rendidos à “revolução” das máquinas fotográficas sem o mais do que centenário espelho.

Mas vamos esquecer por agora os anúncios da Canon e da Nikon para refletir em geral sobre o segmento das câmaras mirrorless. Eu devo confessar que a ideia de uma câmara mais “transportável” e mais discreta, mantendo as possibilidades e a qualidade das melhores DSLR, agrada-me. É um bom ideal, capaz de me convencer em termos teóricos. Mas estas câmaras, na verdade, têm beneficiado apenas os fabricantes, sem vantagens proporcionais para os fotógrafos. Por detrás da máscara da “inovação” está, na verdade, apenas a possibilidade de reduzir custos de produção, permitindo baixar preços e, por isso, vender mais. Mas se virmos bem, toda a eletrónica existente nestas câmaras é a mesma que é posta nas DSLR acrescida da evolução natural. E se o mecanismo de retração de um espelho e o correspondente sistema ótico, patenteado há mais de 150 anos, ocupa espaço, também se pode dizer que a sua ausência ainda traz presentemente uma fatura pesada, nomeadamente a obrigatoriedade de visores eletrónicos que estão ainda longe de permitir a mesma “sensação” de enquadramento e composição do prisma de vidro, e o facto de ser imperativo, por razões óbvias, que o sensor esteja permanentemente a sorver energia que nem um cavalo para que, do outro lado da câmara, consigamos ver o que a câmara “vê”.

As câmaras mirrorless trazem vantagens? Claro que sim, e a título de exemplo atiro a que mais me cativa: a profundidade de foco, possibilitando, com o adaptador adequado, poder-se usar virtualmente qualquer objetiva que se queira. Mas vieram para revolucionar o mercado? Se os fabricantes um dia desistirem da produção das velhas DSLR, que remédio teremos nós senão aceitá-las de braços abertos. Até lá, pelo menos a mim não me convencem. E vou acreditar (com forte desejo) que esse momento ainda vem longe.

Leave a Reply

Your email address will not be published.