O 27 de outubro estava marcado na agenda: o grande dia da estreia da segunda temporada de Stranger Things. Para quem gosta de fotografia e de cinematografia, a série produzida pela Netflix que pôs os irmãos Duffer no mapa é muito mais do que uma bela história de fantástico/terror. Tim Ives, o realizador, apostou numa câmara RED Dragon e lentes Leica Summilux-C para a primeira temporada e agora, para a segunda dose, fez um upgrade da câmara para uma RED Weapon 8K. Adicionou grão de filme 35mm digitalizado para dar um ar mais orgânico, aplicou técnicas dos anos 80 de realização (muitos zooms lentos, muitos pannings, etc.), um rácio de 2.00:1, uma colorização que é pura alquimia e, voila, temos um belo pedaço de imagem retro, uma delícia de produção, uma obra prima da técnica digital a fingir que é cinema à antiga. Só que isto, para os televisores mais modernos, é um contransenso. Viva a eletrónica, mas abaixo a eletrónica.

Porque é que “Stranger Things 2” tem uma imagem de aspecto barato-artificial de novela em televisores modernos? A tecnologia dos aparelhos mais recentes não aceita a “regra” das 24 imagens por segundo típica do cinema.

Portanto, dizia eu, dia agendado para começar a ver Stranger Things 2 e… que imagem desenxabida, a parecer vinda de uma câmara de vídeo daquelas com que se fazem novelas nas cadeias de televisão, com um brilho muito moderno e um visual eletrónico completamente obtuso. Na gíria moderna, este tipo de imagem é mesmo conhecido por “the soap opera look”. Abaixo de mau.

Pára tudo, vamos lá aos fóruns dos nerds como eu para ver o que se passa. Cá está, há mais malta a falar do assunto e até a Forbes faz um artigo sobre o “balde de água fria” da qualidade de imagem da nova temporada. Os próprios irmãos Duffer pedem desculpa pelo sucedido. Mas a culpa é dos televisores modernos e é tão fácil de resolver que até dói.

 

Tim Ives recorreu à magia das lentes Leica Summilux C para conseguir o efeito desejado na série.

Se tem um televisor moderno, vai ter de fazer isto…

Os últimos modelos de televisor, Full HD ou 4K, sobretudo os Samsung, Sony e LG, entre outros, estão dotados de uma tecnologia genericamente conhecida por “smooth motion” (o nome artístico da proeza varia de marca para marca, mas não anda longe disto). Quando os aparelhos dotados desta virtude chico-espertiana encontram uma transmissão compatível com este sistema (como, por azar, é o Stranger Things 2), analisam quantas imagens são produzidas por segundo e aplicam imagens simuladas intermédias (interpoladas) até serem conseguidas tantas imagens por segundo até ao limite do que o televisor consegue produzir, para que a imagem seja “suave”. Para além deste truque, o aparelho acrescenta nitidez eletrónica (sharpness) para disfarçar vícios de tecnologias antigas e o resultado é uma porcaria artificial, intragável, que de retro pouco tem. E nada mais injusto depois do esforço de Tim Ives para conseguir precisamente o inverso.

Tim Ives, realizador de Stranger Things.

Tim Ives fez tudo o que podia para dar um efeito de cinema tradicional a Stranger Things 2. Mas a eletrónica moderna estragou tudo.

Explicando de outra forma, tradicionalmente o cinema é filmado (e projetado) a 24 imagens por segundo. Este número não é ao acaso, resulta de uma longa história por trás tendo por base a receita para o aspecto apelativo que a imagem cinematográfica tradicionalmente comporta. Ora os televisores modernos, que conseguem produzir centenas de imagens por segundo, acham que 24 imagens por segundo é muito pouco e, por exemplo, se o televisor tiver a capacidade de produzir 100 imagens por segundo (frames per second), ao encontrar apenas 24 vai criar 76 imagens falsas (que não existem no original) para preencher os “espaços em branco”. Ou seja, 24% de imagem real e 76% de puro lixo (neste caso) feito de uma mistura das 24 imagens reais (processo conhecido por interpolação digital). E esta “maravilha” da técnica ainda é brandida orgulhosamente pelos fabricantes.

Nos televisores Samsung, por exemplo, a tecnologia Auto Motion Plus tem de ser desativada para se ver a segunda temporada de Stranger Things.

Portanto, o que fazer? Ir aos menus do televisor, procurar nas configurações tudo o que possa conter a palavra “motion” e desligar tudo. TUDO. Nos Samsung é qualquer coisa como “Auto Motion Plus”, nos Sony chama-se “Truemotion”… E só então sim, conseguimos chegar perto daquilo que Tim Ives quis que nos chegasse aos olhos, merecendo “Stranger Things 2” a classificação de obra prima da cinematografia.

E as modernices eletrónicas que fiquem para ver bola e novelas.

Leave a Reply

Your email address will not be published.